Crônica da Semana, por Marco Vasques

BIOGRAFIA DA CASA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [04/08/2014]

 

A casa é o espaço que nos abriga da chuva, do sol, dos ventos inoportunos e dos olhares indesejados que invadem despudoradamente nossa intimidade. A casa tem uma função de acolhimento, de reserva. É onde recebemos amigos, choramos, abrimos a guarda, mostramos nossos defeitos e inventamos nossas fantasias. Ela possui seus cantos de guardados e de recordações, seus esconderijos de segredos, de dores, de alegrias passadas, de lembranças e de desejos. A disposição dos móveis e os objetos que escolhemos mostram um pouco do habitante de cada casa. Até a cor com que são pintadas, por exemplo, possui uma narrativa peculiar. A casa é uma espécie de extensão do corpo.

Geninho, menino do interior de Imbituba, nunca refletiu muito sobre os metros quadrados que abrigaram sua mãe e seus quatro irmãos. Apenas vivia a leveza de sua infância. No entanto, num desses dias de verão em que o sol iluminava ainda mais a paisagem, recebeu a notícia de sua mãe que precisavam mudar por conta de uma briga violenta que ela teve com seu avô. A síntese da contenda ele só hoje sabe. Sua mãe engravidou e seria mãe solteira pela sexta vez. Indignado, seu avô expulsou a filha com a família de suas terras.

Após muita negociação desesperada, sua mãe conseguiu com um amigo de infância um terreno distante dos olhares severos do ancião de aspecto rude e pensamento de estaca. Seu avô tinha opinião de pedra: uma vez dito algo, ficava irredutível a qualquer argumentação. Não deu outra. A casa de madeira precisava mudar de terra. Um amigo desconhecido contratou um caminhão. Reuniram-se alguns homens da vila e a tarefa agora era remover a casa intacta. A operação provocou alvoroço, sobretudo em Geninho, que viveu dentro de uma casa aérea por alguns instantes.

Foi assim que ele teve uma de suas experiências de infância mais excitantes e fantasiosas. Viu sua casa ser carregada sobre um caminhão. E, enquanto a família retirava os móveis, esvaziava os guarda-roupas, enchia caixas com os mais variados objetos, ele se deliciava ocupando os espaços vazios. Brincava com as baratas mortas, com os ovos de lagartixas e com algumas ninhadas de ratos que esguichavam como porco que sabe do caminho da morte. Geninho voltou, aos dez anos de idade, a ter outra experiência que encheu seus olhos. Viu, após um rebuliço geral, sua casa ser consumida pelas chamas. Foi assim: numa noite de trovões e relâmpagos, parte da biografia familiar sumiu. Nunca mais obteve as fotos da infância, os objetos familiares e os brinquedos dos irmãos. Até hoje Geninho tem os olhos encharcados de chamas, e as lembranças são queimadas gigantes que a memória reteve.

 

 

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