É tarde lá fora – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 06/08/2014

Há uma tarde lá fora. Ela se fez clara, aberta tarde que se esvai com o passar das horas. Lá fora pitangueiras, goiabeiras, ameixeiras frutificam, alimentam pássaros e passantes curiosos. São todos irmanados no doce das frutas, no verde-acontecimento que se faz nos jardins, nas árvores próximas e nos morros distantes. Lá fora, o céu é uma azulescência ainda mais firme à tarde, quando só ocorrem raras nuvens que se fazem desenho e desejo. Olhá-las é criançar-se outra vez, melhor, manter-se infantil, essa palavra tão carregada de pejo e injúria pelos adultos. As nuvens nessa tarde aberta desmentem qualquer lampejo de adulteza. E são ajudadas pelos urubus, esses voos-pretos que praticam seus olhares das alturas. E circulam, nobres, atrás de sua comida podre aqui em baixo. Alguns descem até a beira do mar, para pegar os mortos e abandonados peixes da última pesca. Somos todos irmanados na fome: o poeta que criança-se a cada goiaba temporona encontrada por sorte, a sabiá que já comeu praticamente toda a fruta e o urubu, que não gosta de goiabas, mas que também se alimenta de encontros casuais. Há outros esfomeados na tarde que acontece: os bois que pastam num terreno baldio; os ricos humanos que esperam lugar para sentar e comer um cupcake, nome estrangeiro para um bolo sem graça; as formigas carregadeiras que atacam a horta de alface. Há outros ainda, mas são inomináveis ou invisíveis nessa tarde acontecida. No fundo, todos estão esfomeados entre o verde, o azul e o amarelo desse sol que é atravessado pela tarde, ele mesmo uma solidão quente que nos olha e, talvez, nos inveje porque não tem fome, tem apenas sua fixidez quase nunca lembrada, pois o sol nos parece um movimento, um nascer-se e por-se a cada dia. Há o mar também, esse advento de força e repetição que, às vezes, engole vidas. Mas a fome do mar é outra, não essa nossa fome parcimoniosa, cheia de doces, frutos, ou carniças. A fome do mar é um acontecimento tão grande quanto essa tarde aberta. De resto, tudo vai noiteacontecendo calmamente. A tarde lá fora finda-se, é memória agora, talvez um ou dois poemas, algumas dezenas de fotos, e essa crônica que, mais uma vez, tenta fazer-se clara e aberta como foi a tarde lá de fora.

Rubens da Cunha

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