Crônica da Semana, por Marco Vasques

O BINARISMO DE BUNDÓPOLIS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [11/08/2014]

Dona Lindomar anda meio sem paciência nos últimos dias. Não aguenta mais um tipo de gente que graceja em Bundópolis. Trata-se do pessoal que confunde o direito de divergir, de ter opinião e de defendê-la com oprimir e obrigar o outro a pensar igual. É o velho e conhecido binarismo com suas garras fascistas. Ele está presente na política, na arte, no futebol, nas escolas, nas famílias e onde mais o leitor possa ir ou imaginar. No entanto, nos últimos meses, tem se proliferado pela cidade gente douta em tudo, sobretudo em arte.  Simpática, a velhinha tem evitado confrontos. Já deixou de frequetar alguns lugares, sobretudo aqueles enxertados de gente deveras opiniáticas. Quando pode, silencia, faz um gesto de sim com a cabeça e se reserva o direito de não opinar.

E tem sido criticada até por isso. O caso é mesmo sério. Se a velhinha se manifesta e discorda do coreto, leva uma saraivada de gritos e impropérios. Se fica no seu canto, muda, é acusada de conivência. Cogitou em bebericar seu vinho semanal sozinha. Entretanto, aprendeu desde criança que vinho é uma bebida de celebração e por isso procura não ingerir o líquido dionisíaco sem acompanhante. Passou a mão na agenda, já que não estava disposta a encarar a tempestade que se aproximava, e ligou para sua filha mais jovem, que logo topou o convite.

Martinha, que também já não é mais nenhuma mocinha, chegou na hora marcada. Agradeceu ao convite e se pôs a beber com sua mãe. Os assuntos foram pipocando sem ordem. Falaram da separação definitiva de Martinha, do menino que provocou a paciência de um tigre em Curitiba e teve o braço devorado, do motoqueiro assassino de mulheres no estado de Goiás, dos policiais estupradores de Brasília. Pulavam de um assunto para o outro. Ora discordavam, ora concordavam, mas sem grandes rubores que não fosse o resultado da bebida sagrada.

Após duas garrafas de Aretis, a nova descoberta etílica de Dona Lindomar, pede à filha que vá para casa porque já é hora de velho se recolher. Ao deitar, pensou em reunir os netos e os filhos no final de semana, mas logo lembrou que o neto dramaturgo, filho da Rita, não pode se encontrar com a Lurdinha, filha do Josué, que é atriz. E se Murilo — que se denomina poeta radical sem sequer ter escrito um único poema que se possa ler — aparecer, o encontro ficará polarizado e a briga será garantida. Leem livros, frequentam teatros, fazem viagens internacionais. Enfim, são artistas, então por que tanto binarismo? Ah, lembrou! Artista não precisa ter coerência. Foi a última frase que ouviu do neto mais novo, que é artista visual contemporâneo.

Anúncios

Uma resposta para “Crônica da Semana, por Marco Vasques

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: