Até quando? – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 13/08/2014

Até quando?

Até que se desfaçam as cordas do sentir, nunca até quando, responderia Hilda Hilst. Apesar da enigmática resposta da poeta, a pergunta ainda ressoa diariamente em nossas vidas em outro sentido. Se na literatura, esse “até quando” remete a questões mais abstratas, densas sob o ponto de vista filosófico ou religioso, há outros “até quando” mais imediatos, mais cotidianos que também precisam de respostas, ou melhor, precisariam não ser mais perguntados.

Assim, até quando?

Até quando seremos vítimas do descalabro dos corruptos e corruptores? Até quando o serviço público será palco “cargos de confiança”? Até quando veremos nossas reservas ambientais invadidas e destruídas? Até quando as praias e rios serão esgoto a céu aberto? Até quando a especulação imobiliária determinará o destino das cidades? Até quando teremos a mobilidade urbana focada no carro? Até quando as parcas tentativas de se combater a desigualdade social será sempre achincalhada pelos privilegiados? Até quando os governantes, que deveriam apoiar a laicidade irrestrita do Estado, se aproximarão perigosamente das religiões, sobretudo aquelas de cunho mais conservador, aqueles que dizem de boca cheia que o Estado é laico mas não é ateu? Até quando teremos que assistir campanhas eleitorais cada vez mais artificiais? Até quando teremos que combater machismo, racismo, homofobia e as demais formas contínuas de opressão e exclusão? Até quando teremos que ouvir coisas como por exemplo “se ele pode usar uma camisa 100% negro, porque eu não posso usar uma camisa 100% branco?” ou “as feminazi”, “os gaysistas”, “ditadura isso, ditadura aquilo”? Até quando teremos que explicar conceitos como falsa simetria? Até quando teremos que falar em contexto histórico, dívida histórica, poder e discurso? Até quando teremos que aguentar garotos de 20 anos com saudade da ditadura? Até quando teremos que ouvir que estamos prestes a sermos vítimas de um golpe comunista? Até quando o criticar a cidade em que vivemos nos fará ouvir em resposta: “por que você vive aqui então? É só ir embora.” Até quando a crítica, seja política, estética ou ética, será confundida com ofensa? Até quando?

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Uma resposta para “Até quando? – Crônica de Rubens da Cunha

  • Maurélio Machado

    Até quando viveremos sob o jugo da hipocrisia, dos canalhas, dos ladrões, dos assaltantes do dinheiro público, da humilhação imposta por políticos e autoridades,até quando seremos cada dia mais pobres:financeira e culturalmente? ATÉ QUANDO…
    Meus parabéns pela inspirada crônica, protestos contra os descalabros de nossa sociedade. Abraços amigo e Mestre Rubens

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