Crônica da Semana, por Marco Vasques

A PRISÃO DE SALETE

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [18/08/2014]

Dona Lindomar, como de costume, adora ficar em casa observando os jornais. Algumas notícias são tão, mas tão velozes, que, às vezes, fica difícil de entender o todo, analisar o contexto e formar um juízo mínimo sobre o evento anunciado. Nesta semana, um dos noticiários mais vistos no Brasil anunciou, com pompa e circunstância, a prisão de Salete, que, segundo a matéria, é uma das traficantes de craque mais influentes de um reduto que resolvemos denominar de Cracolândia.

O faturamento mensal dela ultrapassa a casa de um milhão por mês. Ao enunciar este dado, o jornalista, num tom de deboche, acrescentou que não é possível que uma pessoa que tenha uma renda dessas por mês e que vive no tráfico por mais de 40 anos ainda não tenha dado um jeito em sua vida.  Finaliza fazendo mais uma ironia, ao se referir ao local em que foi presa, pois Salete vivia na Cracolândia em condições precaríssimas.

A explicação veio na sequência. Salete tem que dividir toda a grana com uma turminha da pesada que está presa. Dona Lindomar, que tem algum neurônio em funcionamento, apesar da idade, logo abriu um sorriso e, antes de tirar qualquer conclusão do episódio, resolveu esperar o término da matéria, para, depois, elucubrar sobre os acontecimentos. E é exatamente neste ponto em que tudo termina. Salete foi presa, diz a jornalista, também em tom sarcástico, e era comandada por traficantes presos de cadeias espalhadas pelo Brasil.

A velhinha pensou, pensou e chegou à conclusão de que Salete, finalmente, após 40 anos de árduos trabalhos na rua, foi promovida, pois se juntará aos chefes e, por consequência, será mais um deles controlando o tráfico de dentro dos presídios. Sobre a quantia mensal revelada, Dona Lindomar se nega a acreditar que a divisão seja feita apenas com os comandantes presos. Uma inspeção mínima, e não precisa ser nenhum Sherlock Holmes para fazer tal dedução, comprovará o quanto de gente graúda e miúda está envolvida na administração da grana.

Por fim, por malabarismos do destino, a inferência de Dona Lindomar é simples: a prisão de Salete consiste na sua libertação. Ao ser presa, foi provida, porque vai controlar o tráfico com seus comparsas, os soltos e os presos, de dentro do presídio. Lá ela terá acesso irrestrito a celular, a informações privilegiadas dos traficantes concorrentes e ainda será protegida por um sistema que insiste em anuir, despudoradamente, toda espécie de corrupção. Logo ela, que sempre acreditou num sistema carcerário humanista. Sempre imaginou uma cadeia limpa, com comida boa, com ambiente agradável. Mas com a notícia da prisão de Salete, suas convicções foram abaladas.

 

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