O culto ao livro – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 20/08/2013

Algumas vezes recebo pelo facebook postagens de louvor ao livro. Coisas como “desligue a TV e vá ler um livro”, “pare de ver BBB e vá ler um livro” são bastantes comuns nas redes sociais. Não raro, eu fico pensando o quanto esse culto ao objeto livro é estranho e falho. É como se naquele espaço do livro também não pudesse haver alienação, enganação, deturpações éticas, ou seja, para muitos parece que o fato de estar em livro cria uma isenção, uma verdade, um arcabouço que torna qualquer conteúdo benéfico e inteligente. Outro ponto bem comum é que, geralmente, pessoas que saem em defesa do livro pouco leem realmente. Usam esse discurso como uma espécie de salvaguarda para uma aparente erudição. Seria assim tão feio dizer que não se gosta de ler, ou que livros não são assim tão especiais?

Livros são objetos que contem uma ideia, qualquer ideia. Essa idealização do objeto, muitas vezes, esconde algumas coisas bem perniciosas, como por exemplo, entrar numa biblioteca de uma escola e perceber que a maioria dos livros disponíveis para as crianças são muito ruins, tanto esteticamente quanto no conteúdo. Mas, parece que o que importa é a biblioteca cheia de livros e as crianças lendo. O mesmo vale para os livros destinados aos adultos. Parece-me muito mais produtivo e instrutivo assistir a um bom programa de televisão do que passar horas lendo um livro ruim. Talvez seja o caso de fazer aqui uma distinção que esse culto ao livro não consegue fazer: pensando de acordo com Roland Barthes, livro é uma obra, ou seja tem um autor, um proprietário, está dentro de um sistema financeiro, é um objeto que pode ou não conter um texto. “Ah, mas todo livro contém texto”, dirão. Sim, mas texto dentro do conceito de Barthes é outra coisa, é algo que “mantém-se na linguagem”, é aquilo que se “coloca nos limites das regras da enunciação (racionalidade, legibilidade, etc)”. O texto pode ser lido sem a autorização de seu pai-autor, além de ampliar os limites do leitor, o texto é provocação, tecido, rede, o texto é plural, vário, espectral e se interpenetra nos vãos e desvãos de quem o tenta aprisionar. E o texto está em todo lugar. Talvez seja a hora de iniciarmos um culto ao texto e não tanto ao livro.

Rubens da Cunha

 

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4 respostas para “O culto ao livro – Crônica de Rubens da Cunha

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