Preconceito e juízo – crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no jornal A Notícia em 26 de agosto de 2014

Estamos numa era profundamente tecnológica. Estamos conectados, ligados, filmados, fotografados o tempo todo. É provável que noções como privacidade e individualidade sofram alterações bastante significativas nas próximas décadas. O que é privacidade para uma pessoa de 30 anos dificilmente será para seu filho que acaba de nascer. Talvez o mais fascinante disso tudo seja esse processo de transição que estamos vivendo. Logo, nada mais será analógico, ninguém mais se lembrará do tempo de antes da internet, da mesma forma que ninguém hoje se lembra do tempo de antes da energia elétrica. No entanto, nesse mundo que se expõe e se transforma diariamente, algo está permanecendo quase que intacto: o preconceito. (E aqui falamos de todos os tipos: racial, de gênero, sexual, político, religioso) A quantidade de gente que posta textos, compartilha páginas, insiste num discurso preconceituoso está bem assustadora, sobretudo, porque protegidos, muitas vezes, pelo anonimato. O preconceito é um mal a ser combatido diuturnamente. Evoluímos, é certo, mas ainda é preciso vigilância e denúncia de todo discurso que se mostre preconceituoso, para isso é bom sempre ter à mão as palavras de Hannah Arendt, uma das vozes mais lúcidas de todos os tempos: “uma das razões para a eficiência e a periculosidade dos preconceitos reside no fato de neles sempre se ocultar um pedaço do passado. Além disso, observando-se com mais atenção, vemos que um verdadeiro preconceito pode ser reconhecido porque nele se oculta um juízo já formado, o qual originalmente tinha uma legítima causa empírica que lhe era apropriada e que só se tornou preconceito porque foi arrastado através dos tempos, de modo cego e sem ser revisto. Com relação a isso, o preconceito diferencia-se do mero boato que não sobrevive ao dia ou à hora do rumor e no qual reina uma grande confusão caleidoscópica de opiniões e juízos mais heterogêneos. O perigo do preconceito reside no fato de originalmente estar sempre ancorado no passado, quer dizer, muito bem ancorado e, por causa disso, não apenas se antecipa ao juízo e o evita, mas também torna impossível uma experiência verdadeira do presente com o juízo.”

 

Rubens da Cunha

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