A Tristura – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia, em 03/09/2014

Ouço num espetáculo sobre cantigas e vilancetes portugueses uma palavra que se perdeu no tempo: tristura. Ela ainda existe nos dicionários apenas como sinônimo de tristeza, essa sim a palavra que venceu a guerra do tempo e permanece viva, cotidiana. Tristura se tornou uma palavra coberta pela velhice, mas, diferente de outras que tiveram o mesmo destino, mantém-se sumamente poética. Quase como se fosse um neologismo, uma dessas palavras que os poetas inventam acrescentando um sufixo ou um prefixo que não pertencem a ela. Coisa bem comum em gente como Guimarães Rosa e Manoel de Barros.
Talvez por permanecer tão escondida, tão presa no tempo das cantigas de amor e de amigo, a palavra tristura tenha uma força mais melancólica e menos severa do que tristeza. Tristura é como se fosse uma gastura, uma pressão sobre o peito, um desespero contido e quieto. É como se fosse um estado de espírito, mais do que um sentimento. Se a tristeza é essa antítese da felicidade, é essa peso que carregamos quando nos acontecem coisas graves, é essa matéria-prima do luto, a tristura talvez conseguisse ser tudo tudo isso, mas há nela uma doçura, uma inocência pueril que lhe tiraria o pejo, lhe tiraria a cascadura que as palavras tem e que se faz necessário para que elas não sejam esquecidas.
Talvez por isso, tristura não sobreviveria em tempos tão tristes, em tempos que a tristeza é tratada com remédios tarja preta. A tristura é uma palavra frágil, pouco afeita a enfrentamentos, pouco capaz de conter em si as agruras de um mundo cada vez mais tenso, cada vez mais paradoxal, pois ao mesmo tempo em que alcançamos níveis bem altos de tecnologia, de ciência, de conhecimento, ainda estamos agarrados a valores destituídos de qualquer ética humanitária. Nesse mundo de agudezas crescentes, a tristura não poderia sobreviver. Melhor mesmo que fique lá, naquele passado remoto, que sirva apenas àquelas dores de amor de poetas anônimos, e que apareça agora só de vez em quando, numa canção ou num poema, lugar mais confortável, onde a tristura pode se sentir segura, sem que venham as ferocidades do mundo contemporâneo lhe ferir a beleza.

Rubens da Cunha

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2 respostas para “A Tristura – Crônica de Rubens da Cunha

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