Crônica da Semana, por Marco Vasques

SÓ MACACO É MACACO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [08/09/2014]

Não é sem espanto que Dona Lindomar tem acompanhando os noticiários nos últimos dias. O que não gira em torno das eleições, está circulando ao redor de uma moça que xingou um jogador de macaco.  Não foi só a moça, mas ela foi identificada e deve ser devidamente punida, sem choro nem vela. E não venham com essa de que ela foi ao embalo da turma, que ela não tinha a intenção de ofender. Ofendeu, xingou, cometeu racismo e agora tem que pagar pelo delito cometido, como está previsto na legislação vigente.

Não se trata — como querem alguns brancos que adoram manter privilégios — de crucificar a garota. Ninguém, salvo um e outro fascista, quer que ela seja levada ao cadafalso ou apedrejada em praça pública. O que se espera é a devida punição, sem comoção nacional e sem atenuação. E se alguém apedrejar a casa dela, se alguém a ameaçar, que seja igualmente punido, porque ainda não voltamos para o completo Estado de Natureza, aquele estado selvático relatado por Hobbes em Leviatã.

 O que espanta Dona Lindomar — que já viu e ainda vê negros serem escravizados, discriminados, usurpados no Brasil e no mundo afora — é a falta de profundidade dos doutos na questão. Mas, em tempos de eleição, cabe uma discussão. Vejamos: no país da impunidade generalizada, a punição de alguém, sobretudo nas circunstâncias relatadas, parece um absurdo. Estamos tão aconchegados em preconceitos e tão fisiologicamente inseridos nas injustiças, que punir alguém nessa situação, o que deveria ser absolutamente normal, gera uma incredulidade nacional. Mas como? Como penalizar a pobrezinha da menina branca, já que todo mundo faz isso? E as demais injustiças? Coitadinha, agora imaginem a vida dela?

São tantas as indagações incrédulas, que Dona Lindomar não vê mais gente; só vê interrogações assustadas. Sim, porque a comoção nacional é fruto do medo da galera que quer manter a nossa vidinha social fincada no sectarismo, na segregação, no preconceito e no privilégio.  Justamente quando deveríamos respirar aliviados porque temos uma sociedade que não pretende mais tolerar o racismo, a gritaria é geral e o espanto nacional.

O estado de perplexidade que domina o Brasil em relação ao caso é a afirmação de que andamos de mãos dadas com toda a sorte de preconceito. É assim com a mulher estuprada. É assim com o menino gay jogado do viaduto. É assim com os mendigos em que tocamos fogo. É assim com os meninos, sempre negros e pobres, que os policiais colocam nos camburões invisíveis. É assim com político corrupto. Nosso país detesta a punição por medo, por egoísmo e, sobretudo, para manter privilégios seculares.

 

 

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Uma resposta para “Crônica da Semana, por Marco Vasques

  • Fátima Costa de Lima

    Um país cuja população apresenta sentimentos de compaixão paradoxais: pede, com razão, justiça aos palestinos atacados em Gaza, mas não consegue se comover com as injustiças raciais que são cotidianas em nossas ruas e calçadas, em nossas instituições públicas e privadas. O povo brasileiro clama por justiça social no planeta, mas internamente morre de pena do racista. Obrigada, Osíris, pelo seu texto. Minha dúvida é também essa: porque a torcida dessa jovem flagrada em ato racista não lhe dá guarita? Fico preocupada é com o fato de deixarem a torcedora sozinha para ser punida pelas leis antirraciais. Porque não se apresentam junto com ela? Porque não são solidários a ela num momento tão difícil? Ao invés de aparecerem e se retratarem do ato ilegal e contra a humanidade que praticaram, eles se escondem para seguir proclamando ainda mais seu preconceito nas redes sociais. Torcem juntos, mas quando a coisa esquenta, fogem e deixam a jovem sozinha para responder pelo crime de muitos. Assim começa o terror, é o que a história mostra, e morro de medo de vermos, dentro em pouco, capuzes brancos nos estádios de futebol…

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