Crônica de Semana, por Marco Vasques

A BICICLETA
Por Marco Vasques
Publicado no jornal Notícias do Dia [15/09/2015]

Ele sabia que sua mãe jamais conseguiria comprar, ainda mais para ele, objeto tão caro e inútil à mesa. Uma bicicleta, nas condições econômicas em que se encontravam, era um desejo impossível. O pai morrera em acidente de carro. A mãe ficara meses no hospital. Quando Dora se recuperou, deu-se conta de que tinha cinco filhos para sustentar e alguma dívida deixada pelo marido. Além dos traumas físicos e psicológicos do acidente, ela não dispunha de nenhuma renda regular que pudesse acalmar o espanto e o desespero de acordar.
Com apenas doze anos ele já conseguia absorver a atmosfera desfavorável e as dificuldades que enfrentariam para ficarem juntos. Percebeu tudo antes mesmo de sua mãe doar sua irmã a um casal desconhecido. O primeiro laço se rompeu; a primeira ausência surgia. Cicatriz invisível, mas presente todos os dias, sobretudo nas horas das refeições, quando a família mantinha o ritual de comerem juntos. Sua mãe sempre exigiu que todos estivessem devidamente sentados à mesa na hora estipulada. Hoje sabe que era mais para que se pudesse controlar a quantidade do escasso alimento do que por afetividade ou ritual.
Apesar das dificuldades, quando se é criança, as ideias fixas não arrefecem facilmente. Em alguns casos chegam a extremos de radicalidades impensáveis. Ele queria uma bicicleta; era seu maior desejo. E o anseio de uma criança é sempre imperativo de primeira ordem. Na rua sinuosa e empoeirada do bairro pobre em que viviam, observava muitos dos seus colegas descerem os morros faceiros em suas bicicletas. Essa visão era insuportável para ele. Tinha que dar um jeito e conseguir, a qualquer custo, sua bicicleta.
Após muito se indagar, pensou em roubar uma no bairro vizinho, mas,quando imaginou a surra que levaria e o silêncio rígido dos olhos de sua mãe condenando-o perpetuamente, desistiu antes mesmo de elaborar um possível plano de furto. Ela tinha o olhar mais pesado que qualquer outro castigo. Ser trancado na patente fedorenta, que fica ao fundo da casa, apanhar de sarrafo ou fio elétrico ou ser impedido de jogar futebol com os amigos e primos no campinho que fica ao fundo da sua casa eram castigos menores diante do fuzilamento dos olhares acusativos de Dora.
Até que ele teve a ideia perfeita. Resolveu juntar ferros, latas e alumínios para um dono de ferro velho e passou a vender picolés no horário de aula para acumular a quantia necessária ao intento. Em três meses apareceu em casa com uma bicicleta verde escura, com rodas tortas, guidão enferrujado e selim frouxo. Mas nada disso importava. Dora, ao saber da história, enterneceu seus olhos rígidos com lágrimas, após castigá-lo, com enorme surra, pelas sucessivas ausências na escola.

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