Testamentos – Crônica de Rubens da Cunha

Testamentos

O que é um testamento? O que seria esse testar-se? Esse deixar-se e deixar o que lhe pertence aos outros? E outra pergunta surge: deixamos algo realmente? Ou tudo será somente memória até se tornar esquecimento? O certo é que este legado, esse atestar-se nunca é certo. Por mais que façamos escolhas, acertos, planos, tudo pode se transformar em nada, em miséria alheia, pois ao outro é que pertencem as escolhas de continuar ou não o legado que pretensamente deixamos.

Além disso o testamento pode ser de outra ordem, pode ser aquele do poema “Testamento” de Manuel Bandeira, no qual o poeta deixa justamente aquilo que nunca teve. E mais: O que nunca teve é o que melhor conseguiu possuir é o que lhe tornou um “poeta menor”, ou seja, aquele que se cansava do lirismo comedido do lirismo funcionário público. É o que o tornou um diferenciado.

Bandeira começa seu poema já informando e que deixará de herança: “O que não tenho e desejo / é o que melhor me enriquece. / Tive uns dinheiros – perdi-os… / Tive amores – esqueci-os / mas no maior desespero / rezei ganhei uma prece. / Vi terras de minha terra. / Por outras terras andei. / Mas o que ficou marcado no meu olhar fatigado / foram as terras que inventei.” Assim, o poeta nos deixa apenas o intangível: uma prece, uma terra inventada, um filho que não nasceu, deixa até mesmo sua vida dada por uma luta não lutada. Haveria bem maior?

Seríamos melhores, por certo, se deixássemos apenas o desejo. Apenas o que poderia ter sido mas não foi. Evitaríamos disputas gigantescas entre os herdeiros e, no caso dos escritores, suas obras não seriam vítimas de gente inescrupulosa, gente com pouco tino comercial e artístico, pois prefere esconder a obra do que ve-la viva por aí. Mas isso é outra história, a questão aqui é o testamento, essa instituição, esse acontecimento que pode desestruturar as melhores famílias. Ou melhor, a questão aqui é um tipo de testamento poético, aparentemente mais simples e que, no entanto, se olharmos de perto, se revelará bem complexo: esse deixar para os outros apenas o desejo, o sonho, aquilo que não foi amealhado durante a vida, mas que serviu de força para continuar vivendo.

Rubens da Cunha

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