Crônica da Semana, por Marco Vasques

UM HOMEM
Por Marco Vasques
Publicado no jornal Notícias do Dia [22/09/2014]

A casa de Dora estava com as janelas escancaradas. Casa branca, com janelas alaranjadas. Um monumento na imensidão do pasto e das chácaras de seu pai. No fundo, o branco semovente das dunas. Ao atravessar o trilho, Dora já percebe que algo diferente ocorre em seu lar. Um odor de dia de festa toma conta dos arredores. Na cozinha, sua mãe prepara, no fogão a lenha, feijão, galinha caipira ensopada em panela de barro e uns bolos de farinha de milho feitos em folhas de bananeiras.

O pessegueiro, ao lado da janela da cozinha, um e outro pano colorido. Um ritual antigo que avisa aos vizinhos que alguém casará. Casa aberta, odor de comida e pessegueiro colorido. Pronto. Alguém da família virará mulher. Dora pensa nas duas irmãs mais velhas e na mais nova, que tem apenas quinze anos. Quem seria a escolhida? Nestes dias o clima ficava sempre tenso, sempre com olhares e mulheres escondidas, porque há sempre um misto de medo com desejo de liberdade nestes dias.

Ser escolhida para viver com um homem desconhecido, com um homem que sequer se sabe o cheiro do corpo ou o tom da voz pode significar libertar-se, mas também pode ser a afirmação do martírio perene. A hora do almoço se aproxima e as quatro meninas são chamadas para o almoço. Sim, o homem, loiro, alto, gordo, careca, com as unhas encardidas de óleo e graxa já está sentado à mesa.

A escolha nunca é dos pais. As quatro estão à disposição, porque o importante é casar todas e tirar, pouco a pouco, algum peso das costas. Afinal, pensa o pai, a velhice se aproxima e todos devem tomar um rumo na vida. Dora senta com as irmãs. A mesa, imensa, é divisada por dois bancos enormes. No lado esquerdo, o pai, os três irmãos e o estrangeiro que deverá ser o mais novo membro da família. Do outro lado a matriarca e suas filhas. Há no rosto de Dolores um ar desgosto e de desconforto ao expor sua prole assim.

Os pratos e os talheres se chocam e só silenciam nos esbarramento de olhares. A família toda em silêncio. O estranho, o solicitante, navega seu olhar uma a uma. Um dos irmãos, para quebrar o silêncio, pergunta ao novato o seu nome. Silêncio. Barão Egídio anuncia ele. Forte. Barão Egídio, proprietário da oficina de carros. E completou dizendo que já que vai ser da família e que todos podem chamá-lo de Mão Suja, que é como é conhecido em sua cidade. Nisso, aponta o dedo enegrecido para Dora e pede que ela se levante. Dora se levanta. Gira, pede ele. Dora gira e desgira. Olha para o patriarca firme, como se tivesse num leilão, levanta, bate firme na mesa e diz em voz estridente que já fez a escolha. Tá feito. É essa! Casamos no mês que vem!

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