Crônica da Semana, por Marco Vasques

O BAR

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [29/09/2014]

Ele parece ter nascido sob o signo da velocidade, da passagem. Mesmo tendo vivido sua primeira infância em Guaíuba, no município de Imbituba, local típico das paisagens bucólicas, já que as terras que pertenciam aos seus avôs tinham à margem esquerda fronteira com o mar e à direita, com o rio. O pequeno terreno, em que ficava a casa de Dora, sua mãe, era entrecortado de um lado pela BR 101 e do outro pela ferrovia. Viveu parte do tempo imaginando lares e destinos. Seu pensamento sempre se movendo para outros lugares, para outras vidas. Nos finais de semana, era comum colocar uma cadeira na janela e ficar imaginando para onde iriam todas as vidas que passavam. O fluxo ininterrupto de carros causava uma espécie de admiração e temor.
Dentre as inúmeras brincadeiras daquele tempo, preferia sempre a de contar carros com as cores de sua predileção. Escolhia uma cor e ficava horas contando e anotando no caderno escolar a quantidade de carros que acumularia em sua frota particular. Tinha dias, os mais tristes, que desejava ser apanhando por um daqueles carros, a esmo, e sumir sem deixar qualquer notícia. No entanto, entre pensar e agir, entre sonhar e avançar, sempre permaneceu, ali, onde as exigências familiares consumiam ele, sua mãe e seus irmãos. Não era o mais velho entre seus irmãos; contudo, as atribuições da casa sempre recaiam em seu corpo.
A limpeza da casa, as idas ao mercado, as visitas à casa de sua avó para pegar farinha de mandioca ou um copo de açúcar emprestado. Enfim, tudo. Até a tarefa escolar de seus irmãos, incluindo as de Antônio, o mais velho, ficava sobre sua supervisão. Todos os dias, de segunda a domingo, dispunha de tarefas e era duramente cobrado. O esquecimento de algo, o que poderia se considerar natural, já que tinha apenas oito anos e nesta idade as ideias flutuam como se fossem nuvens em vendaval, implicava punições severíssimas. A ele nenhum perdão era permitido. Tudo era cobrado no rigor da mão pesada de Dora.
No entanto, de todos os dias, os mais difíceis, os mais infelizes eram os dias em que tinha que ir ao bar do Dorva comprar cigarros para Dora. A cena se repetia duas ou três vezes por semana. Ela, deitada no seu pequeno quarto, cama amarrotada, suja; os seios gigantes de tanto amamentar a nova integrante da família. Chamava, dava o dinheiro. Pedia que comprasse três carteiras de Plaza e recomendava, severa, que o troco teria que voltar intacto; caso contrário, surra de fio elétrico. Era entre o trajeto de sua casa e do bar do Dorva que ele tramava as mil maneiras de matar sua mãe. Sem culpa ou remorso, fazia planos de assassiná-la até que outras ideias dominassem seu ódio.

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