Diário 2 – Madrid, Toledo, Chinchón

Chego em Madrid. A capital da Espanha se revela uma cidade ampla, moderna, dona de uma arquitetura grandiloquente e senhorial. Parece ser uma cidade firme, assentada na seriedade que conjuga bem a contemporaneidade com a tradição. Próximo, está Toledo, a antiga capital da Espanha. É uma dessas cidades medievais em que cada parede tem 1000 anos de história. Trata-se também de um espetáculo arquitetônico labiríntico, que consegue conciliar uma vida cotidiana, afinal as pessoas continuam morando entre as muralhas, e o fato de ser um atrativo para turistas que saem por suas “calles” atônitos diante da beleza terracota das construções. No entanto, é fora do circuito turístico que se pode ver algo além daquilo que está armado para se ver. Chego a Chinchón, uma pequena cidade nos arredores de Madrid. Seu principal atrativo é uma arena de touros fincada no centro da cidade. Quando a vi, me deparei com um fantasma. Aquele lugar foi palco de violência, de morte, de excitação e sangue, foi palco de muito do que compõem a mitologia, ou a alma espanhola, sobretudo desta região, e agora serve de campinho para crianças correrem, enquanto todo o derredor está tomado por restaurantes. Chinchón é uma cidade melancólica porque está cultuando restos de algo que já não mais existe de forma plena, e diferente de Toledo, cuja grandiosidade ainda resiste, Chinchón e frágil, menor do que já foi. Não é decadência, por certo, mas sim um culto ao vazio. Restaram apenas as construções, a vida que ali pulsou agora fantasma-se naquela arena desvirtuada. No entanto, a julgar, pelo que ouvi aqui nesses dias, talvez uma coisa em Chinchón não passe tanto a ideia de fantasmagoria: trata-se de uma placa franquista-fascista pregada numa parede de um predio histórico e que homenageia duas personalidades da cidade, no caso eram pai e filho: “estos por Dios e por España vilmente asesinados por las hordas marxistas de este pueblo. La noche del 27 de julio de 1936”. Ou seja, alguns fantasmas ditatoriais ainda resistem bravamente nos dentros da Espanha. E mais do que de uma arena vazia, são desses fantasmas que devemos ter medo, em qualquer lugar que estejamos.

 

Rubens da Cunha

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