Crônica da Semana, por Marco Vasques

O CASAMENTO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [06/10/2014]

Dolores passou o mês todo preparando a festa, não sem revelar algum descontentamento. Dolores é daquelas mulheres que chora sozinha. Nunca permitiu que alguém olhasse ou beijasse suas lágrimas. Quando soube da morte de Érica, uma de suas filhas que morava na cidade, adentrou a chácara e se escondeu no cafezal. Tinha apenas o vento, o silêncio e alguns cantos de pássaros de cúmplices. Ninguém via direito, mas todos da casa sabiam que as entradas e as saídas de Dolores no matagal significavam uma tristeza presente, aberta. Uma ferida que precisa de sutura.

Assim que o casamento de Dora foi marcado, ela começou a preparar tudo. Vestido para a noiva e para as meninas. Os rapazes na colheita. Um porco e um gado foram separados. O pai de Dora solicitou a um de seus irmãos que reservasse camarão e peixe. A vida no sítio não proporciona riqueza, mas todos têm uma vida farta, disso sabiam, todos, que não podiam reclamar. Ali em Guaiúba, quase tudo que um homem precisa para viver se encontrava. Casa, comida e alguma tranquilidade. Dolores já havia passado por isso outras vezes, já havia sofrido com a ida de Érica para Curitiba. Murchou por um tempo, chorou escondida por três meses e depois a saudade foi engolida pela urgência da vida.

Agora Dolores chorava não só porque não conseguiu nenhuma sintonia com Barão Egídio. Havia algo de estranho nas feições e na alma daquele homem, um olhar que misturava sofrimento, raiva de mundo e coragem para dominar o destino. Dolores sempre teve temores de gente que vive como se fosse imortal, gente que olha para o horizonte como se pudesse controlar as rédeas do sol e da lua. Homens assim costumam construir riquezas, provocar guerras e viver em tempestade consigo mesmo. Não há doçura ou conforto que apascente um coração assim. E era justamente isso que atemorizava Dolores, porque Dora sempre lhe pareceu imaculadamente desprovida de coragem para enfrentar a vida.

Agora não há como retroceder. O dia do casamento chegou. Não há remédio. Dora casará e se mudará para Blumenau, onde reside Barão Egídio, o proprietário de uma oficina mecânica, que segundo ele, nunca o deixou sem comida na mesa. Lá estavam eles, no dia e na hora marcados. Dora entra na igreja e não é possível deixar de notar que os seus olhos estão imensos, crescidos. Eles saltavam do vestido, do corpo. Quanto mais próxima do altar, mais lento e curto eram os passos. Dora sentia que algo a olhava com reprovação, não sabia direito como explicar, mas algo a afastava para longe. Barão Egídio a pegou das mãos de seu pai, sorriu, um sorriso estranho, que parecia dizer a Dora que era preciso não ter medo. Casou amedrontradíssima.

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