Crônica da Semana, por Marco Vasques

UMA LIMPEZA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [13/10/2014]

 

Sua mãe trabalha na cerâmica da cidade. Uma das irmãs, Olga, passou a infância se arrastando no assoalho. Ela foi acometida por uma paralisia infantil e vitimada por sete cirurgias experimentais. A perna de Olga nunca esteve em acordo com o seu corpo; parecia mesmo um personagem, uma boneca. Muitas noites Olga se sentava na cama, entrelaçava as mãos em sua perna fina e torta, e conversava com ela como se tivesse brincando com um de seus brinquedos preferidos. Até hoje essa é uma das imagens mais ternas da infância que carrega na memória.

Naquele dia Olga pareceu ter amanhecido mais entristecida que de costume.  No entanto, a vida não para. Ela foi logo levantando todo mundo. O irmão mais velho reinou, ameaçou lhe dar umas bordoadas, mas se levantou e logo saiu. Ele pensava consigo que precisava ser forte para sofrer tanto, mas sempre ouviu seu avô, sobretudo quando bêbado, berrar pelos cantos do sítio, feito um louco, que o sofrimento fortalece e que é preciso sofrer para se ter vida. Não entendia muito, mas pegou, ainda nos seus poucos anos, o espírito da coisa, isto é, aprendeu que não se passa incólume pela existência.

Muito cedo já sabia que ninguém escapa à desgraça e que todos terão seus infernos. Pode demorar, pode parecer que não, mas chegará um dia em que se vai estar dentro do inferno da morte de um irmão, da doença grave e incurável do pai ou da mãe… enfim, a vida não tem borrão e o destino é surpresa, mas lá à frente todos se encontrarão com o demônio, cedo ou tarde.

 Ele parece ter nascido com o demônio. Pensou nos carros que cruzam a BR e se perguntou se alguém lhe daria uma carona, para bem longe. Mas desistiu. Tinha que cumprir as ordens recebidas de sua mãe. E não eram poucas. Uma delas era limpar a casa. Tudo bem que a casa não era grande − dois quartos, sala e cozinha −, mas ela também não era pequena. E quando se é criança o mundo é muito maior.

Arrumou as camas, preparou a mesa para o café de Olga, sempre cuidando com muito carinho dela. Tirou todas as bitucas de cigarro debaixo da cama, varreu tudo, lavou a louça, secou e guardou. Depois limpou o fogão. Por fim, teve que passar cera no assoalho. Essa era a parte mais inconveniente, porque ele tinha pouca força e não conseguia o lustro desejado. E, como Dora é um ponto de interrogação, nunca se sabe o que esperar. Por isso passava horas olhando para as telhas enquanto os pés avançavam e recuavam, tábua a tábua.   Arrumou tudo e trocou umas folhagens de lugar. Pedra, água e uns ramos verdes dentro de uns vidros de conserva. Enquanto trabalhava, não saía de sua cabeça a cisma de pegar uma carona, sem destino. Desejou ser sequestrado, mas essas coisas só acontecem na cidade, imaginou.

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