Comezinho(s), Comezinha(s) – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 15/10/2014

Certas palavras comovem mais do que outras. Comezinho é uma dessas palavras que me botam comovido como o diabo, como diria Drummond, esse adestrador de palavras. Comezinho é palavra rara, pouco usada no dia a dia, apesar de seu sentido ser justamente algo cotidiano, aquilo que é bom para se comer, algo fácil de se entender, o caseiro, o simples. Ou seja, comezinhas são essas singelezas da vida. São esses anonimatos que permeiam o destino das gentes, que fazem com que possamos ver aquém dos grandes dramas, dos grandes acontecimentos, das revoluções e desordens éticas ou políticas, que faz da nossa vida aquilo que ela é: um pedaço ou aquele canto simpático e quase sempre desconsiderado da casa. O comezinho é a rotina, o acordar, o comer, o respirar, o rir, o chorar e amar, sem ordem mas também sem desordem. Comezinho é seguir ao sabor dos acontecimentos. O comezinho é o caminho que as crianças fazem até a escola, o percurso que os trabalhadores também fazem diariamente, comezinha é a vida acontecendo de forma direta, fluida, cheia de surpresas, de vontades e falhas. Comezinhas são todos os movimentos imperceptíveis que nos constituem e que, muitas vezes, nem sequer atentamos. Comezinha é nossa falta de atenção. Eis aí que entra um outro sentido da palavra comezinho, quando o simples é confundido com o sem importância, quando o fácil de se entender é tido como superficial, quando comezinho se torna um adjetivo ofensivo, usado para diminuir justamente o que é grande, e é grande por ser simples, direto, destituído daquelas complexidades analíticas, descompromissado com os grandes dramas, com os grandes azares. O comezinho é injustamente tido como medíocre, menor, só que as coisas comezinhas são uma força justamente porque são constituídas pelo simples. Comezinhas são as crônicas e os poemas adolescentes de amor, comezinhas são as palavras cheias de clichês e verdades. Eis um pouco o que me comove nessa palavra, além de me comover o fato de termos uma palavra tão pouco usada, mas que dá conta de ser um universo de insignificâncias, justamente aquelas que, se descobertas, nos tornam realmente poderosos, como quer um outro poeta (o das coisas comezinhas) Manoel de Barros.

Rubens da Cunha

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2 respostas para “Comezinho(s), Comezinha(s) – Crônica de Rubens da Cunha

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