Crônica da Semana, por Marco Vasques

A FESTA

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [20/10/2014]

 

Dolores preparou a festa. Ela pensa mesmo é no banquete de Barão Egídio. O que será de Dora nas mãos daquele homem? Agora é tarde. Sempre discordou dos métodos de Antônio, mas fazer o quê? Assim tem sido nos últimos anos, e a própria Dolores foi escolhida por Antônio entre mastigadas e olhares. Tudo começa na mesa; quase tudo termina na cama. Dolores pensava que um dia tudo teria de mudar, que o mundo é outro e que uma mulher, para o bem ou para o mal, deveria ter o direito de escolher com quem deseja se deitar.

Enquanto todos dançavam no salão de festa da igreja, Dolores observava o pequeno corpo de Dora sendo conduzido por Barão Egídio. Os recém-casados dormiriam no sítio de Antônio e, na manhã seguinte, iriam para Blumenau, onde Dora viveria outro mundo. Ela demonstrava em seu jeito de dançar, em seu rosto e nos olhares constantes à sua mãe que não estava ansiosa por partir. Dora parecia chorar ao olhar nos olhos de Dolores e pedir socorro e indulgência, mesmo não se reconhecendo pecadora. E a mãe, impotente e sabedora do temor e da angústia de sua filha, amargava a impotência de ser mulher e a falta de coragem para cessar tudo, para enfrentar Antônio e seus métodos arcaicos de se posicionar na vida.

Contudo, Dolores também sabia que ela e Antônio estavam no limite da vida, que enfrentar seu marido agora seria abrir feridas e tumultuar a existência de ambos. Faz cinco anos que não dorme mais com Antônio por conta dos grandes porres de cachaça e do cheiro do cigarro de palha que vive entre seus dedos. Antônio aceitou, após resmungar muito, após tentar dissuadir Dolores de que não fazia o menor sentido, que seria um desrespeito. Imagina –  argumentava – o que vão pensar de mim por aí? Que não sou mais homem? Isso não pode ser! Uma mulher obrigar o homem a dormir sozinho?

Não teve jeito. Nos últimos cinco anos que a única companheira de Antônio é a garrafa de cachaça, que ele mantém sempre cheia debaixo da cama. Tem noites que um morcego ou uma borboleta entra pelo telhado escurecido e o diverte, pois tenta alcançar o voo; tenta parar os olhos no movimento, mas a vista embaralhada pela cachaça torna o exercício uma impossibilidade física. A     madrugada se aproxima. No salão, pratos sujos e cheios de comida jogados sobre a mesa, copos com bebidas, algumas toalhas manchadas. Familiares e amigos já se foram. Amanhã o dia será de muito trabalho, pensou Dolores. E Dora estará ausente, talvez uma ausência absoluta. A festa terminou. Sobraram as risadas de uns primos bêbados e as trocas de olhares amargos. Agora não há mais o que ser feito, pois Dora partirá.

 

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