Sean Bean e as eleições – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no JornalA Notícia em 23/10/2014

Corre pela internet um vídeo sobre as inúmeras mortes que ator inglês Sean Bean interpretou no cinema. Coincidência ou não, a maior parte de seus personagens morrem nos filmes, sejam heróis ou sejam vilões. Para quem não está associando o nome à pessoa, estamos falando de Ned Stark, de Guerra dos Tronos, cuja morte na série já é clássica. Pois bem, entre as inúmeras cenas de morte, há uma no filme Morte Negra, na qual o personagem de Sean Bean morre de uma maneira terrível: seus braços e pernas são amarrados a dois cavalos que partem em direção contrária, despedaçando-o em cinco partes.

Essa cena serve para fazer uma analogia com os eleitores que estão indecisos nesse segundo turno. O que temos visto, sobretudo nas redes sociais, é um mar de certezas. Tanto de um lado quanto do outro. Eu fico imaginando aquele eleitor indeciso, que ainda não optou, ao ler tantos olhares sobre o mesmo fato, o mesmo debate, o mesmo escândalo, deve se sentir muito como o personagem do Sean Bean no filme. Puxado violentamente para lados opostos. Se eu, que mesmo sem ter tantas certezas, já consegui decidir o voto, me sinto assim, estraçalhado por ataques e defesas, e, sobretudo, me sinto afogado nesse mar de certezas absolutas (bem pleonásticas mesmo, que estamos vivendo uma era de pleonasmos). É algo assustador. E aquela dúvida? Aquela incerteza que deveria embasar tudo o que somos, pensamos, temos? Foi deixada de lado, foi abandonada em algum canto junto com a coerência e o rigor histórico.

Outro ponto interessante dessas eleições: é possível ver como os discursos são limitados, são parciais, estão sempre afetados por elementos subjetivos, por crenças, por visões de mundo. Trata-se de um ótimo exercício, sobretudo para professores de língua portuguesa, ver como um mesmo tema, uma mesma imagem, um mesmo fato pode ser tratado com ângulos tão diversos, com olhares tão díspares que chega a assustar. Claro, os discursos, que partem do mesmo fato, são totalmente contrários e os dois se acham os senhores da razão. Os dois são donos da certeza mais certa e mais absoluta. Os dois postam no facebook fazendo com que o pobre eleitor indeciso seja puxado violentamente para lados opostos e continue sem saber o que fazer.

Rubens da Cunha

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