Crônica da Semana

ZONEIRO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [27/10/2014]

 

Ele só presenciou a força do amor de mãe ao ver seus irmãos adulados. O mais velho chegava ao extremo do ridículo, porque, ao se esforçar nas carícias, o limite entre a ternura, o amor e a afetividade contrastava com a lascívia, a luxúria e a lubricidade. Era tanto o esfrega, o apertar e o cuidado com seu irmão, que ele já não se sentia dentro da paisagem familiar. O ódio e a beligerância eram a sua fatia. Apanhava por tudo e por todos. E de qualquer jeito, em qualquer parte do corpo. Era espancado como os sacos de farinha que seus primos enchiam com a areia das dunas e penduravam pela chácara para o exercício da raiva.

Na verdade, até os nove anos de idade não se lembra de ter visto sua mãe levantar a mão a nenhum dos irmãos. Em relação à Olga, até entenderia, porque seria o primeiro a querer apanhar no lugar da irmã. A vida e sua fúria incompreensível já a castigaram por demais; não seria justo que ela sofresse outros golpes de má sorte. No entanto, os demais praticavam as mesmas peripécias que ele. Faziam as mesmas badernas escolares, as mesmas peraltices com os animais dos vizinhos e os mesmos roubos de frutas nas chácaras que circundavam a de seu avô.

Os domingos eram esperados, porque era o dia em que seu avô liberava o campo de futebol para a família jogar. Eram primos, tios e o restante dos agregados familiares. O olho azul de italiano e massacrado pelo sol de Antônio abria algum sorriso quando alforriava o campo de futebol. Parecia gostar de exercer o poder sobre a família, fosse do jeito que fosse. Por isso instituía regras como a do futebol só nos domingos, a de matar boi só nos casamentos, porcos só em aniversários; as pobres das galinhas eram fulminadas a toda hora.

Mesmo nas partidas de futebol era rejeitado. Não tinha habilidade esportiva alguma, o que fazia com que ficasse fora do time. Seu único contato com a bola era no exercício de gandula. Corria para disputar a bola mesmo quando fora do jogo.  Muitas vezes se obrigava a aceitar a depreciada função de goleiro, pois, parado sob a trave, não atrapalharia os craques da família. Certa tarde de domingo, num desses jogos, lá estava ele, de fora. Nada para fazer. Olhou para o boi bravo que estava amarrado no pé de coqueiro, pensou e não deu outra. Subiu na árvore e soltou o boi que seu avô chamava de Zoneiro. A correria foi geral. Todos se jogaram na água, porque ele realmente era impossível.  Foi uma confusão! A partida acabou e seu avô Antônio disse que, se não capturasse Zoneiro, o futebol estaria suspenso por tempo indeterminado. Rogou praga pra que nunca mais encontrassem o animal.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: