Historinhas de ódio (menos a última) – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 29/10/2014

1

Ela é trabalha no guichê de um estacionamento num shopping. Ganha pouco, mora longe do trabalho, tem horários ingratos e atende muita gente rica e mal-educada. Teve que trabalhar no domingo das eleições. Quando soube do resultado, resolveu partir. Disseram que construiriam um muro lá na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Ela vai ajudar a construí-lo. Ela não quer ser igual aos pobres lá da outra parte. Depois, ela irá se tornar uma caçadora de gente que não concorda com o novo sistema. Ela continuará pobre, mas acha que irá se divertir bem mais do que no atual emprego.

2 – Ela é professora. Quando jovem adorava aquele verso do Manuel Bandeira que diz: “Sei que a poesia é também orvalho. Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.” Sempre sonhou em ser uma amada que envelheceria sem maldade. Depois ela casou, teve filhos, separou, passou a frequentar uma igreja e começou a odiar muito a presidente do país. Ninguém sabe o que aconteceu com o sonho da professora.

3 – Ele sempre gostou das utopias. Por isso, sempre foi comunista, melhor, sempre foi stalinista. Podiam dizer o que fosse: mas Stalin foi quem conseguiu realizar a utopia de um estado igualitário. Infelizmente o mundo mudou, muros caíram, os inimigos venceram. Mas ele resiste. Por isso, quando estava numa peça de teatro e viu um monte de ator atacando Stalin, dizendo que o comunismo é um sistema totalitário, não teve dúvidas: levantou e gritou contra toda aquela gente herética. Dias depois, leu num jornal um cronista contando sua história e espezinhando suas crenças. Não deu outra, arquitetou seu plano: o cronista e a trupe teatral conhecerão, muito bem conhecido, o que é uma gulag, o que é uma Sibéria.

4- Ele assiste uma entrevista com um deputado, devidamente eleito pelo sistema democrático, dizendo que a ditadura militar tem que voltar. “Esse é o homem e esse é homem”, pensa. Lê no facebook um gay qualquer dizendo que o mesmo deputado é o que há de pior na política nacional. Não vai permitir isso. Não pode permitir isso. Por um acaso, no dia seguinte, é apresentado ao rapaz que fez a crítica ao deputado.

Rubens da Cunha

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