Crônica da Semana, por Marco Vasques

A SURRA

Por Marco  Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [03/11/2014]

O boi foi encontrado morto na praia de Itapiruba. Antônio dava soco no vento porque era um dos seus melhores reprodutores. Quando recebeu a notícia de que o animal estava entre as espumas e a areia do mar, uma labareda cresceu em seus olhos.  O primeiro impulso foi o de ir à casa de sua filha, pegar o neto pela orelha e levá-lo até ao local. Maquinou algo pior. Antônio contratou o caminhão do vizinho para trazer o animal novamente ao sítio.

Foi um tumulto e uma festa a captura do boi morto. Aproximadamente dez homens saíram de Guaíuba com destino a Itapiruba. Com bastante dificuldade, conseguiram colocá-lo na carroceria do caminhão e voltaram. A chegada era esperada por toda família, pois Antônio já havia determinado que os filhos fizessem uma enorme cova sob o coqueiro em que Zoneiro costumava ficar. Os filhos só não entenderam porque Antônio solicitou que o buraco fosse com, no mínimo, cinco metros de profundidade. Obedeceram e cavaram.

Ao passar pela casinha do neto, Antônio pediu ao motorista que parasse, pois faltava completar o grupo com o facínora que soltou o boi no dia anterior. Ele já estava em seu canto, aos prantos. O lugar sujo de sempre. O mesmo lugar do qual fugia após ser agredido.  Ele estava debaixo da casa, entre os inúmeros cachorros pulguentos de seu irmão, aos soluços. Antônio o puxou sem piedade. Subiu no caminhão, e rumaram ao pasto. O menino olhava para o olho esbugalhado do animal, num misto de pavor e incompreensão. Entre o silêncio do boi e a algazarra dos homens pressentia o pior.

A operação de captura consumiu praticamente o dia todo. Chegaram ao local já no finalzinho da tarde. Tiraram o boi do veículo e o jogaram ao lado do enorme buraco. Antônio pediu que todos saíssem. Queria ter uma conversa com o delinquente, e tinha que ser em particular. Avô e neto estavam a sós ao lado do cadáver. Era possível ver a fúria em meio a tanto silêncio. O velho tirou o facão da cintura, cortou as duas orelhas do boi e colocou-as nas mãos do garoto; depois cortou o rabo inteiro e, com um pequeno gesto, enfiou as duas orelhas banhadas de sangue coagulado na boca do peralta. Então começou a chicoteá-lo com o rabo de Zoneiro. A cada estocada os dentes do menino se contraiam e o sugo coagulado era engolido. Num transe de raiva, Antônio surrava, surrava como se estivesse cortando uma árvore a machadadas até que o seu neto caiu esmaecido. Por fim, empurrou o boi no buraco, depois o garoto e saiu para tomar seu litro de cachaça. Antes, passou na casa de sua filha e disse que,naquela noite, seu filho dormiria com ele, que não se preocupasse, afinal um homem tem que ser um homem, em qualquer idade.

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