Na casa do silêncio – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal À Notícia em 05/11/2014

Bato na porta do Silêncio:

– Oi, me deixa entrar, to precisando ficar aqui um pouco.

– Claro, o que aconteceu? Pergunta-me o Silêncio, bem baixinho como é de seu costume.

– Você nem pode imaginar. Tem muita gente que foi seduzida pela Ignorância. Você sabe como ela é, fica pelos cantos, dizendo que ficar com ela é fácil, gostoso, que as pessoas serão felizes, então muita gente cai.

– É, por isso que eu estou mais recolhido, não tenho andado muito por aí, tá tudo muito perigoso, quase ninguém mais me quer por perto.

– Pois é, eu pensei que a Ignorância poderia me seduzir também, então fui bater na casa da Indignação. Ela me incentivou a rebater, a tentar fazer com que os seduzidos vissem o que estavam dizendo, como eles repetiam ladainhas e superficialidades, como eles estavam massacrando a História, essa pobre coitada indefesa, como eles acreditavam em coisas estapafúrdias, e o pior, como eles estavam também sendo seduzidos pelo Preconceito.

– O quê? O Preconceito está nessa também? – O Silêncio senta-se e olha-me triste.

– Claro, andam sempre juntos os dois. A Ignorância seduz e o Preconceito mantém a pessoa presa àquele dois metros quadrados de ideias fixas. Você não tem ideia do que eles estão fazendo.

– Mas e a Dúvida, a Incerteza? Onde elas estão?

– Olha, tentei encontrá-las, mas parece que foram expulsas da cidade. Disseram também que a Ignorância e o Preconceito expulsaram aqueles três irmãos novos que tinham chegado há pouco tempo, aqueles que têm um nome diferente, composto…

– O Olhar de Novo, o Ler Mais de uma Fonte, o Ver se é Assim Mesmo?

– Então, rapazes tão bons, ajudavam tanto a gente, não é que foram expulsos a pauladas pelo Preconceito. Ah, disseram também que a Verdade Absoluta tá hospedada junto com a Ignorância e o Preconceito. Ou seja, teremos tempos difíceis. Por isso vim pedir guarida aqui, você sempre foi tão bom comigo, Silêncio. Deixa eu ficar aqui uns dias.

– Claro, pode ficar o tempo que quiser, só não se acostuma, senão você pode ser seduzido pela Indiferença, que mora aqui do lado.

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3 respostas para “Na casa do silêncio – Crônica de Rubens da Cunha

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