Crônica da Semana, por Marco Vasques

A PARTIDA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [10/11/2014]

            Barão Egídio entrou no fusca e bateu a porta com muita força. Dora já estava dentro do carro, com os olhos arregalados para as dunas brancas. No banco traseiro, as malas com as roupas, duas fotografias da família, farinha, milho, amendoim, melancias e um saco com laranjas; enfim, de tudo o que se produzia no sítio de seu pai estava levando um pouco. Barão Egídio teve um aparte com Antônio antes de adentrar no carro, olhou fixo para Dora e despediu-se do sogro.

            Ela não sentia atração alguma por Barão Egídio, tudo o que sentia era medo das suas mãos imensas, de seu corpo grande e de seu andar rude e barulhento. Ouviu seu pai comentar que era homem correto, homem trabalhador, e seria um ótimo pai de família. Agarrou-se à esperança de que ele realmente pudesse ser um bom pai para os seus filhos e silenciou. O carro, aos poucos, ia costurando um infinito de paisagens nos olhos de Dora, que começou, para se distrair, a contar as casas espalhadas às margens da rodovia e ler o maior número de placas que seu olhar conseguisse alcançar.

            Chegaram em Blumenau após quase três horas de viagem. A imagem do Rio Itajaí-Açu a impressionou bastante; pensou em perguntar algo para Barão Egídio, mas desistiu. O enorme buraco rasgando a cidade era uma paisagem estranha para ela, pois passou a vida olhando para as águas de maneira horizontal. O mar de um lado e o enorme rio do outro sempre amansavam seu corpo e apaziguavam seus pensamentos. Olhar a água de cima para baixo lhe trouxe uma sensação estranha, uma angústia inquietante.

            Barão Egídio percebeu o espanto e o nervosismo da esposa e tratou logo de dizer que já perdeu dois primos em uma das cheias e acrescentou que sua irmã nunca foi encontrada. Havia sido carregada por uma das cheias mais violentas, num mês de outubro, em que a chuva adentrou novembro num dilúvio sem fim. Dora percebeu na voz de seu marido, pela primeira vez, um tom mais doce ao relatar sobre o desaparecimento de seus amigos, parentes e conhecidos. A lista era grande.

            No entanto, ele disse que não havia motivos para pânico, pois sua oficina de carros e sua casa ficavam num morro do bairro da Velha, local em que nunca se é ameaçado pela água e nem por desmoronamento. Já ficou ilhado e sem luz, contudo a água e a terra não ameaçavam sua pequena porção de terra. Sim, salientou firme que ali, em épocas de inundações, quem não era afetado pela água, costumava ter algum dano com os soterramentos, tão virulentos quanto a força da água. E foi neste clima de confissão e tragédia que Dora teve as primeiras impressões da cidade em que, muito provavelmente, passaria toda a sua vida.

 

Anúncios

Uma resposta para “Crônica da Semana, por Marco Vasques

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: