Dos abandonos – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 12/11/2014

 

Olho para a minha estante e vejo o livro O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida, publicado na Série Vaga-lume, da Editora Ática. Lembro que comprei esse livro há pouco tempo, para terminar de lê-lo.

Era lá pelos anos oitenta. Eu estava no ginásio, ou aquilo que chamavam de ginásio. Eu era um invisível, tanto para os outros quanto para mim. Na verdade, eu só me via mesmo quando lia. Na biblioteca do colégio encontrei alguns livros, entre eles O escaravelho do diabo. Lembro que comecei a ler, mas não consigo lembrar porque não terminei o livro. O que será que me impediu de ler essa história policial? Não sei. Devo ter abandonado em algum ponto e nunca mais retornei ao livro, no entanto, ele sempre ficou em minha memória como uma falha, uma ausência que precisava ser preenchida. É estranho esse negócio de abandonar livros, tem uma coisa de culpa, de remorso, ou de sensação de derrota. O livro parece ser um algo que não poderia ser abandonado. Claro, isso é uma idealização: se o livro, sobretudo de literatura, não acontecer no seu corpo, não vibrar na sua pele, deve ser abandonado sem dó. Há muitos livros a serem lidos, há muita obrigação também envolvendo leituras: estudos, trabalho, pesquisa. Não se faz necessário que ainda tenhamos que ler um livro até o final só porque nos sentimos culpados por deixar a leitura incompleta.

Abandonando a tergiversação e retomando ao Escaravelho do Diabo, quando o vi na minha estante, percebi que continuei sem lê-lo até o final. Ao ver este volume que tenho aqui num sebo qualquer, rememorei todo um passado, senti novamente a necessidade de saber afinal qual é a solução para o mistério criado por Lúcia Machado de Almeida, lembro também que li as páginas iniciais, provavelmente no caminho entre o sebo e a minha casa, mas depois, abandonei novamente. Agora estou aqui, com o livro separado, com a ideia de que vou começar a lê-lo mais uma vez, com a promessa de que dessa vez ele não será abandonado. Porém fica a dúvida: será que O escaravelho do diabo não está magoado pelas minhas desistências? Será que ele me aceitará de novo, ou me abandonará, vingativamente, pelo meio do caminho?

Rubens da Cunha

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2 respostas para “Dos abandonos – Crônica de Rubens da Cunha

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