Crônica da Semana, por Marco Vasques

UNS PIOLHOS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [17/11/2014]

            A boca já havia recebido o gosto de sangue coagulado e o resto do corpo já dispunha de algumas marcas. A noite que passou abraçado ao boi morto foi um aprendizado de solidão, um convívio íntimo com o silêncio. Já sabia da morte e das estrelas, porque sua estada no buraco de cinco metros não foi só de agrura. Brincou de ouvir o vento, de contar nuvens e, sobretudo, de dar nomes estranhos aos pontos luminosos no céu. Ao voltar para casa, no dia que sucedeu aquela noite, Dora o recebeu com algumas chineladas, mas deixou que ele dormisse, que descansasse da noite anterior.

            Depois, os acontecimentos de sempre. A vida entra nos eixos e a preocupação com o amanhã fez com que o passado fosse, temporariamente, inundado pelo esquecimento. Continuava a sonhar com um rapto repentino, a desejar que um carro desses, que atravessa sua vida todos os dias, parasse e o levasse para algum lugar diferente. O fato é que muito raramente um carro parava. Quando acontecia era para trocar um pneu ou visitar a casa azul, a casa proibida, que ficava entre os longos troncos de eucaliptos.

            Num desses raros momentos de reunião familiar, Dora encheu cinco fraudas brancas de Neocid e colocou na cabeça de cada um dos filhos. Após algum desconforto e tontura, Dora retira as fraldas que ficam estreladas de piolhos. Alguns ainda se mexem e todos se divertem matando os bichinhos que se debatem no tecido. A frauda de sua cabeça era a que tinha a maior quantidade de piolhos; foi o suficiente para sua mãe tomar a decisão de cortar os seus cabelos, pois se ali residia o maior número de piolhos, significava que ele era o proliferador da praga.

            No dia seguinte, Dora falou com Zulmira, sua tia, e combinaram para o final de semana. Seria no final de semana que, juntas, cortariam o cabelo dele. O dia chegou, tudo parecia natural. Dora colocou uma cadeira entre a plantação de amendoim e o trilho. Zulmira chegou com tesoura e giletes. Primeiro cortaram os cabelos até aparecer o couro. Depois pegaram um pouco de água e sabão e esfregaram em sua cabeça. Fizeram espumas e começaram, sem delicadeza alguma, a raspar o restante com as giletes.

            Careca, e com sangue escorrendo sobre os ombros, entrou na bacia cheia de água, onde tomava o banho noturno, e sofria ao mínimo toque do líquido avermelhado escorrendo pelo corpo. Ardia a cada enxaguada. Usou a fralda encardida de piolhos para se secar. Deitou. Pela manhã teve dificuldade para despregar o corpo da cama. O travesseiro estava colado em sua cabeça. Zulmira e Dora nunca souberam o tamanho da dor provocada, porque ele já era íntimo do silêncio e não mais reclamava de suas dores.

 

 

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