Obrigado, Cora Coralina – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia, de 19/11/2014

 

Na semana passada escrevi aqui sobre o livro O escaravelho do diabo. Comentei sobre o fato de ter tentado lê-lo na adolescência e de tê-lo abandonado duas vezes pelo meio do caminho. Pois bem, depois que escrevi a crônica, finalmente resolvi ler o livro sem abandoná-lo. Antes não tivesse lido. A solução do mistério é um deus ex-machina terrível, o livro é todo perpassado por um machismo irritante, além de um pedantismo elitista mais irritante ainda. Enfim, envelheceu muito mal o livro de Lucia Machado de Almeida.

Essa experiência me faz refletir sobre como certos textos não podem ser retomados. Dias desses, escrevi no facebook que Cora Coralina me fez poeta e que Hilda Hilst me manteve poeta. Explico: foi com o texto de Cora que eu, pela primeira vez, chorei de emoção lendo poesia. Foi a primeira vez que eu percebi na pele, no poro, o que era um poema. Foi ela quem me abriu a porta e disse, “entra, garoto, fica à vontade”. Depois fui conhecendo outros poetas até que esbarrei com Hilda Hilst, a quem, desde então, tenho dedicado minha atenção e amor integral, sobretudo, nos últimos seis anos em que fiz um mestrado e um doutorado estudando a sua obra. Dias desses deu vontade de voltar à Cora Coralina, saudade mesmo! Mas será que quem eu sou agora vai aceitar a poesia de Cora? Será que minha pele, meu poro, vai se deixar seduzir novamente por ela? É bem possível que não. Então, fico assim apenas com a saudade martelando minhas lembranças esparsas de um tempo em que eu frequentava a Biblioteca Municipal de Joinville vasculhando livros de poesia. Melhor ficar só com a lembrança daquela poeta que pegou um adolescente invisível pela mão e fez com que ele se visse melhor e visse melhor o mundo.

Saber olhar seu rastro de leitura é uma arte. Perceber o caminho percorrido, melhor, a escada subida. Lá nos primeiros degraus ficam aqueles escritores a quem dificilmente voltaremos, depois uns intermediários, e por fim, aqueles que sempre se repetirão, mesmo que apareçam outros, e sempre há espaço para os novos que vão surgindo. Uns leitores sobem muito a escada, outros apenas alguns degraus. Daqui, desse ponto em que estou na escada da leitura, olho para baixo e sou todo gratidão àquela poeta que, humildemente, se fez meu primeiro degrau.

Rubens da Cunha

Rubens da Cunha

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