Crônica da Semana, por Marco Vasques

PRIMÍCIAS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [24/11/2014]

            Uma nova cidade exige um novo olhar sobre as coisas. A geografia, este acidente histórico, interfere nas relações das pessoas e gera diferentes modos de pensar e viver. O homem das montanhas não vê o mundo sob a mesma ótica que o homem do mar.  Assim estava Dora em Blumenau. Perdida em novos olhares. Após a chegada, entrou na casa de Barão Egídio, com algum desconforto, mas ele foi logo tirando as coisas do carro e colocando na porta. Com apenas um gesto fez com que ela entendesse que era necessário arrumar tudo.

            Depois mostrou os cômodos. Sala, cozinha, banheiro e quarto. Ela se movimentava sem jeito. Mundo novo; estranho. O silêncio habitava cada canto. Barão Egídio abriu as janelas, e não parava de falar. Dora, ao olhar por umas das janelas, viu um bar cheio de homens jogando sinuca, fumando e bebendo intempestivamente. O tempo parecia ter se despregado do tempo, não conseguia ter medida das coisas. Por onde começar a nova vida? Pensou em se comportar como Luiza, sua mãe, e foi para a cozinha fazer café, sem ao menos saber como deveria fazer o café de seu marido. Se fraco, se forte. Ensaiou uma pergunta, mas se calou.

            Preparou do jeito que lhe foi possível. Barão Egídio já adentrara a oficina, onde recomeçou o trabalho interrompido. Levou o café até ele, que sorveu sem fazer sinal de agrado ou desagrado. Assim foi o dia. Ela perdida entre as paredes do novo lar, ele metido na oficina de carros entre ferramentas e automóveis velhos. O fim da tarde se aproximava, e Dora se assustava com o anoitecer. Sabia que seu corpo não era mais seu, que teria de se entregar sem luta, mesmo que desejasse não ser tocada, não ser beijada.Resistir, como dizia sua mãe, poderia ser o pior caminho para amansar um homem.

            Anoiteceu. Na mesa, os olhos de Barão Egídio atravessavam o vestido de Dora. Olhar firme, entre o desejo e a gana. Ela tentava não encarar, não retribuir o olhar buliçoso do marido. Na verdade, não sentia atração alguma. Ele saiu da mesa e ligou a televisão. Assistiu ao noticiário, esbravejou contra uma e outra coisa no sofá. Chamou-a para o seu lado. Suas mãos pesadas caíram sobre as coxas delicadas. Dora estremeceu de estranheza. Nem ela saberia definir aquela sensação. Somente anos depois veio a saber da última conversa travada entre Barão Egídio e seu pai. Caso não fosse virgem, seria devolvida à família, na condição de mulher desonrada, de puta. A devolução não ocorreu, mas Dora, naquela noite, passou pelos piores cinco minutos de sua vida. Aprendeu a cultivar o desespero dentro da própria casa; dentro do próprio corpo, que já não era mais seu.

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