O Habitante do dia – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia

O Habitante do dia

Num poema Alphonsus de Guimaraens Filho pergunta “De onde vem a fremente e lúcida euforia que me faz, de repente, habitante do dia?”. Já confessei inúmeras vezes minha predileção pelo dia, sou um poeta diurno, na verdade matutino, mesmo que isso pareça paradoxal ao padrão dos poetas, seres cantados e contados sempre como seres da noite, da lua, sobretudo na mitologia do Romantismo. Os poetas notívagos, boêmios, que atravessavam a cidade de bar em bar, até que a cidade matutina surgisse e eles desaparecessem, feito fantasmas.

Tentando responder a pergunta poética acima, talvez a fremente e lúcida euforia que sempre me fez habitante do dia tenha vindo da infância, do fato de eu dormir num quarto voltado para o nascer do sol. A aurora me acordava. Aqueles amarelos iniciais entravam quarto adentro e faziam o menino se levantar, olhar janela afora e ver os pastos abertos, as distâncias verdes iluminadas pela manhã. A paisagem da infância se fazia no acolhimento solar dos pássaros, dos rios, na algazarra das galinhas, naquele mugir imperioso das vacas leiteiras.

As líricas manhãs da infância também tangiam a casa antiga da avó, a estrebaria, o curral dos porcos, a roça de milho e de mandioca. O grandioso pé de limoeiro dentro do pasto, e aquele antigo ingazeiro na beira do rio. Os ingás impossíveis de serem colhidos amanheciam também com a vontade sacra de colhê-los. Foram anos sendo acordado pelo sol. Foram anos maturando o matinal em mim. A noite tinha lá seus mistérios, seus barulhos, seu contornos de sombra e fantasia. A noite também tinha as estrelas. A noite era bonita, mas não me acordava, a noite me faz e ainda me faz dormir. É a manhã que toca, me seduz, acorda meu poro e me poetiza sempre. Diferente do verso do poeta, não me tornei um habitante do dia de repente, mas sim, cresci sendo um habitante do dia. Foi um longo aprendizado. Melhor, ser habitante do dia é contínuo aprendizado. Nos dias de agora, durmo em lugar em que o sol não entra pela manhã. No entanto, toda vez que acordo, mesmo que o sol não tenha chegado ainda ao meu quarto, ele já chegou em mim, há muito tempo e por muito tempo ainda ficará.

Rubens da Cunha

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: