Crônica da Semana, por Marco Vasques

SER OU NÃO SER

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [01/12/2014]

            Sempre que alguém o encontrava vinha logo a pergunta: o que você vai ser quando crescer? Só mais tarde descobriu que a pergunta era uma bobagem sem tamanho, que havia muito do utilitarismo mercantil nela, e jurou que jamais faria, quando adulto, essa pergunta a uma criança pelo simples fato de que, ao nascer, uma criança já é, já está no mundo com todos os devires. No entanto, quando perguntavam, ele respondia. Tinha o sonho de ser gari, de ficar pendurado no caminhão, correr atrás para pular e dar instruções ao motorista. Parecia-lhe um encantamento viver assim.

            Dora sempre sonhou em ter um filho padre. Mas ele não gostava das cerimônias de domingo e, muitas vezes, foi arrastado pela orelha para o sermão semanal. A insistência foi tanta que cedeu. Com onze anos de idade topou o sonho de sua mãe e foi levado direto à Paróquia São Judas, na cidade de Joinville. Ao chegar, o padre solicitou à Dora que ficasse na igreja, pois precisava fazer uma entrevista, em particular, com o menino para saber se tinha alguma vocação para o sacerdócio.

            O padre levou o garoto para um quarto, que ficava atrás da igreja, e começou a entrevista. Primeiro, tirou a camisa e acariciou os ombros, depois tirou a bermuda e apalpou o corpo inteiro do menino com muita malícia. Ele, no entanto, nada entendia, mas sabia que estava desconfortável e não gostava do que estava vivendo. Assim foi por meia hora entre carícias que chegaram aos beijos, de modo que o menino, assustado, chorou e berrou pela presença de Dora.

            Saiu da igreja em silêncio porque sabia da veneração de sua mãe pelos homens santos e não tinha condições de se expressar sobre o ocorrido, pois até aquele momento não conseguia manipular conceitos e, muito menos, dada a sua ingenuidade, ter a ampla dimensão dos atos do pároco.  Contudo, o encontro com o prior foi suficiente para saber que não queria mais exercer a função de clérigo. Ainda assim, sua mãe ajeitou a papelada e não parava de falar para os vizinhos que teria um filho padre. O brilho nos olhos de Dora era contagiante ao encher a boca e dizer aos familiares que, finalmente, a família estaria abençoada.

            A documentação foi ajeitada e a ida para o convento de Corupá estava marcada. Três dias antes da partida, ele começou a adoecer, não comia, não bebia e tremia sem parar. Dora interpretou o abatimento do filho como intervenção do demônio e inveja dos familiares. Nunca desconfiou que seu filho foi abusado na entrevista e que foi afastado da igreja, para sempre, por obra do vigário, em quem tanto confiava. Aprendeu a ser, não sendo.

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