O tempo é agora e ágora – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 03/12/2014

Seguimos envoltos pelo tempo: esse enigma bem maior do que pode imaginar nosso pensamento. O que é o tempo? O que é esse contínuo escorrer, esse contínuo sair e ir para algum lugar. Percebemos o tempo vendo seus efeitos no corpo, nas paredes, nos olhos dos bichos. O tempo é ruga, rusga mesmo que tentamos dominar, aprisionar em números e nomenclaturas inúteis: segundos, horas, semanas, meses, décadas, milênios. O tempo escapa e espanca sempre nossa tentativa de limitá-lo. A concepção mais antiga de tempo considera-o como uma ordem mensurável do movimento. Era aquela “esfera que abrange tudo” de acordo com os pitagóricos. O antes e o depois, a imagem móvel da eternidade, intervalo do movimento cósmico, são conceitos de tempo nascidos na antiguidade e que perduram ainda hoje, sobretudo, porque são conceitos que nos dão a percepção de controle, de entendimento, de detimento do tempo. Carregamos o tempo nos pulsos, nas paredes, nas torres das igrejas. Conseguimos desenvolver relógios atômicos com altíssima precisão. Determinamos nossas vidas em horários, em pedaços de tempo para trabalhar, para descansar, para comer, para dormir. Julgamos quem se atrasa assim como nos arrependemos de ter perdido a hora, aliás, o que é perder a hora? O que seria esse ato de perder algo que já é perda constante. Se pensarmos dentro da lógica de que o tempo está passando, nós somos uma perda contínua. As horas passam por nós levando o que somos, mas deixando-nos vivos para acreditar que perdemos o tempo. Perder tempo também é uma imagem que nos dá a ideia de que podemos controlar o tempo. De que não devemos perdê-lo, geralmente fazendo coisas inúteis ou seguindo caminhos que não eram os planejados. Talvez devêssemos pensar numa lógica inversa: viver, seja de que modo for, é sempre ganhar o tempo. Aliás, o tempo, sendo algo fixo ou algo em movimento, é sempre um ganho, um acréscimo. Uma pele a mais que a cada dia vamos vestindo, apesar de pensarmos justamente o contrário: de que a pele está indo, descascando, esfarelando-se. O tempo: mistério, enigma, viagem sem volta ou sem adiantamento. O tempo é agora, ágora onde nos encontramos todos.

Rubens da Cunha

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