Cena 11 e a crise do teatro

O diretor e dramaturgo Matthew Maguire diz que a crise é a condição eterna do teatro. A crise pode ser a estética, na qual o teatro, essa arte da efemeridade, acontece somente no momento da cena que jamais se repete no dia seguinte, se vê envolto nas rupturas necessárias para manter-se novo e ao mesmo tempo sendo uma das nossas artes mais ancestrais. A crise também pode ser financeira. Os profissionais do teatro tem que fazer o difícil jogo entre produzir algo relevante artisticamente e conseguir manter-se financeiramente. Em tempos de cultura de massa, esse jogo fica cada vez mais complexo, ainda mais para quem faz teatro fora do eixo, ou fora dos eixos. Talvez uma das partes mais complexas desse jogo seja a necessidade de se depender dos recursos públicos. Escapa-se do jogo comercial em que o lado financeiro é suprido muitas vezes pela supressão do lado mais artístico e entra-se no jogo dos projetos, das contrapartidas, das buscas por empresas que possam “patrocinar” a peça. Nesse mar de crises, o teatro vai nadando e sobrevivendo. Em Joinville se pode perceber isso com a mostra de teatro que vinha acontecendo anualmente e que reunia, em alguns dias, a produção dos grupos atuantes em Joinville. Apesar de alguns problemas como a equalização de trabalhos qualitativamente díspares na programação, a cena servia para mostrar ao público joinvilense a produção local, com todos os seus acertos e erros, seus sucessos e percalços. Eis que a cena desse ano, chamada Cena 11, não aconteceu porque o projeto não foi aprovado no SIMDEC do ano passado e, apesar da aprovação na Lei Rouanet, não se conseguiu empresas que se interessassem. O complexo jogo foi perdido pela classe teatral, e por consequência, pela própria cidade que fica sem um evento cultural importante, que vinha se firmando como um bom exemplo de atividade que permite ao público um contato efetivo com a produção teatral local. A crise se mostra profunda e perversa: de um lado a falta de recurso impedindo que a Cena 11 aconteça, de outro, a dependência que a arte teatral tem dos recursos públicos para que ela possa acontecer sem interrupções. Trata-se de um círculo vicioso que talvez, paradoxalmente, só a crise eterna do teatro possa romper.

Rubens da Cunha

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Uma resposta para “Cena 11 e a crise do teatro

  • Antonio martins

    O teatro sempre precisou da crise, em cena ela sempre sustentou o teatro . Não existe teatro sem crise. o teatro é a própria crise.

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