Língua e (é) política – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 17/12/2014

Marcos Bagno afirma que tratar da língua é tratar de um tema político. Bagno tem se dedicado a expor, sobretudo, o preconceito linguístico como forma de exclusão. No entanto, eu gostaria aqui de tomar essa frase em outro sentido: em tempos em que comentaristas da internet escrevem diariamente suas opiniões o que mais se vê são pessoas incapazes de entender que seu discurso vem carregado de preconceitos de toda ordem, ou seja, poucos entendem que usar a língua para expressar algo é um ato político. Falta muita análise do próprio discurso, falta entendimento de que liberdade de expressão é uma coisa, opinião é outra, e discurso de ódio é uma terceira coisa.

Estamos todos envoltos numa grande e infinita rede chamada internet, esta falta de limites da rede parece que nos dá a impressão de que também não devemos ter limites, de que podemos dizer tudo da forma mais agressiva possível. E os exemplos pululam para fora da internet: Bolsonaro, Malafaia, Sheherazade (e mais uma quantidade enorme de genéricos), por exemplo, proferem as maiores barbaridades antiéticas e são aplaudidos e defendidos por uma multidão incapaz de perceber o discurso de seus líderes e seus próprios discursos quando saem em defesa de gente que prega combate aos homossexuais, retorno de ditadura, justiça com as próprias mãos e mais uma lista inumerável de ataques aos direitos individuais e humanos.

Analisar politicamente os discursos é fundamental para poder enfrentar os discursos de ódio que estão bastante revigorados nos dias atuais. E não é apenas aquele ódio espancador, assassino, mas aquele ódio implícito em quem defende abertamente que um professor de história possa ter uma suástica no fundo de uma piscina, ou que um deputado possa dizer que não estupra uma mulher porque ela não merece, ou daquele que acha que negros se fazem de vítimas, e que mulheres são culpadas pelos abusos que sofrem. São nesses discursos, bastante comuns e travestidos de opinião, que se encontra um movimento político perigoso que está se firmando e está se expondo justamente porque acredita que a linguagem não é algo político. Assim, é preciso sempre recorrer ao velho ditado: o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Rubens da Cunha

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