O natal e a máquina do mundo – Crônica da semana, por Rubens da Cunha

Crônica publicada no jornal A Notícia em 24/12/2014

Natal lá fora. A cidade enfeitada comercializa-se na festa do consumo. Quase não adianta fazer o discurso saudosista de que antes o natal era melhor, era algo mais ingênuo, puro. Talvez seja preciso  aceitar o estado atual das coisas. Aceitar o natal lá fora como se aceitam os acidentes, a velhice, o avanço da tecnologia, o aquecimento global, com uma ponta de tristeza, outra de nostalgia, uma terceira ponta de desespero. A máquina do mundo é uma grande indiferença: pouco liga para as  engrenagens humanas, pouco liga para vicissitudes filosóficas daqueles que pensam um pouco fora da casa. Assim, resta saber da engrenagem da máquina do mundo, saber que o salário de proletário ajudará a manter a roda funcionando. Resta comprar presentes, chocolates, abrir sorrisos diante da família, ser feliz por algumas horas. Lembrar em algum momento o motivo dessa festa. Houve, por certo, um nascimento, mas que já não faz mais sentido, pois foi num tempo em que a máquina do mundo fazia outras exigências. A máquina que nos comanda agora exige compras, aparências, exige que montemos nossos presépios e pinheiros que se desconectaram completamente do sentido primeiro. Por certo, em algum canto ainda comemoram o aniversário que originou toda essa festa. Em algum canto, ainda pensam nas palavras revoltas quando Aquele estava enfrentando a sua máquina do mundo. Palavras cada vez mais esquecidas, mais vilipendiadas, sobretudo, por aqueles que dizem seus seguidores. Mas nem tudo é melancolia nesse tempo de natal. Ainda há nascimentos por aí. Ainda há gentilezas, solidariedades silenciosas, ainda há um tato da esperança sobre os corpos, ainda resta um paladar para além dos produtos que a máquina do mundo exige que sejam comprados, ainda resta algum ar para ser respirado, apesar do sufocamento. A máquina do mundo pode muito, mas não pode tudo, ela abarca consciências, mas não abarca todas, sempre escapam alguns que não se rendem a seus propósitos. Há muito tempo nasceu o homem que insistiu em enfrentá-la. Assim, mesmo que a máquina do mundo insista no esquecimento desse enfrentamento, ele continua aí, apto a quem realmente pensa o natal como um nascimento e não como mais um produto.

Rubens da Cunha

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