Medo-preconceito – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 21/01/2015

Começar por onde? Iniciar mil vezes o diálogo, como diria Hilda Hilst, para que o diálogo se faça de alguma forma mais claro. Não é fácil, porém. Muitas vezes nos deparemos com surdezas inabaláveis. Gente pétrea em seus conceitos fechados. Há muita gente que acredita piamente que a cor da pele, a sexualidade, a quantidade de gordura são definidoras de caráter, de personalidade, fazem as pessoas melhores ou piores à medida que elas se afastam ou se aproximam do padrão estabelecido como correto. Alguns afirmam que o preconceito é ignorância, mais no sentido de não saber, de desconhecer do que de estupidez. No entanto, preconceito talvez seja mais medo do que ignorância. Medo do outro, medo da alteridade que se faz na nossa frente e com a qual não sabemos lidar. Todos temos algum medo preconceituoso. No entanto, nem todos se deixam dominar por esse medo, ou fazem dele uma lei. Eis o crime: tornar o medo que se tem do outro uma lei que abusará, agredirá, matará o outro, antes mesmo que ele fale, que ele diga quem é. Mas esse é um medo visível, explícito, possível de ser combatido. O problema é o medo sutil, o medo-preconceito que se revela nas entrelinhas dos discursos, nos gestos, nos olhares. Aquele medo-preconceito tão comum nos comentários da internet nos quais o sujeito se protege dizendo “eu não sou racista”, “eu não sou machista”, “eu não sou preconceituoso” e logo em seguida ele vem com uma conjunção adversativa: um mas, um porém, um no entanto, para depois contradizer e destruir a sua afirmativa anterior. Esse é o medo-preconceito mais difícil de ser combatido pois vem daquele que sabe a existência de seu medo e o tenta disfarçar, tenta sempre abrigá-lo no outro e não em si mesmo. Além disso, esse medo-preconceito está muito presente também naquele que não tem noção de que linguagem é poder, de que somos sujeitos feitos de linguagem e que é por ela que expomos, ferimos, defendemos, salvamos ou condenamos. Gente envolta pelos medos-preconceitos geralmente não dá atenção nenhuma ao que fala e escreve, pois acredita que tudo é apenas uma opinião, e que o outro, o atingido, é que vê preconceito em tudo. Por isso é preciso sempre iniciar mil vezes o diálogo.

Rubens da Cunha

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