A invasão – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 04/02/2015

Uma trovoada avança sobre a cidade. Ele olha as nuvens escuras, os relâmpagos, ouve o barulho dos trovões, espera a chuva. Olha tudo da janela do sétimo andar. Lá embaixo o vento levanta sacolas de plástico, poeira, papéis diversos jogados a esmo. Pessoas apressam-se, não querem ver a trovoada. Os carros buzinam, motoristas gritam, ônibus não param. A vida lá embaixo parece uma fuga. Todos não querem saber da trovoada. Menos ele, que está protegido, que já fugiu das ruas e agora escora-se em sua janela para ver a cidade ser tocada pela tempestade. Os trovões aumentam, ele recorda-se dos dizeres da mãe, de que aquilo era faxina no céu, era Deus arrastando os móveis. Havia outra versão mais assustadora: os trovões era Deus com raiva. Quanto aos raios, ele só vê a beleza. Sabe do perigo, sabe das tragédias acontecidas, mas ele se fascina a cada relâmpago que clareia a invasão da tempestade. É um risco, um desenho puro e instantâneo no céu. Os relâmpagos são os poemas da invasão. Olha mais uma vez para baixo. Começa a chover. A fuga das pessoas aumenta. Ainda resta muita gente na rua. Ainda restam muitos gritos, muita raiva, muita fuga. Alguns abrem as sombrinhas e guarda-chuvas, outros correm por debaixo da marquise, outros esperam, indignados que a invasão aconteça e acabe. Ele retorna seu olhar para a tempestade. Agora ela está mais perto, o vento bate em sua janela com violência. A chuva aumenta. A invasão está quase completa, logo ele também será invadido. Tivesse coragem iria para a rua, iria receber a tempestade de braços abertos e não com fuga, como fazem todos. Talvez um dia tenha a coragem de se deixar tocar tanto quanto a tempestade tem coragem de tocar a cidade. Mas não agora. Agora é hora de olhá-la, de perceber sua força, sua intensidade de acontecimento natural. Algum tempo depois, o céu limpa-se. A tempestade seguiu seu caminho. Espera que ela retorne amanhã. Lá embaixo, a vida volta a normalizar-se, apesar de molhada, de invadida pela desordem que a chuva intensa causa. Os gritos, a pressa, a fuga das gentes continuam. Ele põe a mão para fora da janela. Alguns pingos ainda caem. Despede-se dos relâmpagos e trovões. Sorri.

Rubens da Cunha

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2 respostas para “A invasão – Crônica de Rubens da Cunha

  • Maurélio Machado

    Normal ou não adoro as tempestades a beira mar, os raios faiscando sob o mar em fúria e os trovões fazendo com que janelas e objetos vibrem a cada encontro de nuvens. Tive oportunidade de estar em Balneário Piçarras quando em meados de Dezembro desabou um vendaval sobre o litoral (especialmente em Barra Velha – muitos postaram fotos, vídeos e textos com o título: “Fim do mundo”…Verdade que foi violenta a tormenta, deu uma pontinha de medo, mas gostei…afinal houve apenas alguns danos materiais e os raios e trovões com sua beleza compensaram tudo!!! Abraços Meste Rubens, ótimo 2015.

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