O passo atrás – crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 18/02/2015

Falar em cultura é falar de uma complexidade. A primeira dificuldade está em conceituar o que é cultura. Entre outras acepções, ela pode ser vista, de forma ampla, como algo inerente a uma sociedade, ou seja, sua maneira de se vestir, comer, falar, estabelecer-se no mundo. E de forma mais restrita, e comum, a cultura está ligada ao estético. Seria o conjunto das artes produzidas pela sociedade: pintura, literatura, teatro, dança, etc. Entrariam aqui também as representações e encenações do primeiro conceito, ou seja, a cultura popular, o folclore, as festas tradicionais.

Administrar tal complexidade é uma das funções públicas: a federação, os estados e os municípios possuem uma estrutura para gerir, desenvolver, apoiar a cultura. Obviamente, estamos tratando da administração pública brasileira com seus vícios, conchavos, jogos de interesse. O setor cultural nunca foi a galinha dos ovos de ouro para nenhum administrador, assim, normalmente, o setor é deixado ao deus-dará. Apesar dos entraves, algumas fundações culturais desenvolvem um papel importante na cultura de uma cidade, como é o caso da Fundação Cultural de Joinville. Eis que o prefeito, numa ação popularesca, resolveu propor uma reforma administrativa em que Cultura, Esporte e Turismo fossem todos administrados pela Secretaria da Educação. Ou seja, a administração de cada um desses importantes setores, que possuem suas especificidades, unidas numa grande secretaria. Quando se deveria privilegiar a independência e fortalecer cada setor de forma técnica e responsável, o prefeito retorna ao passado, ou mira-se em pequenas cidades onde esse modelo ainda é possível, e propõe um amálgama administrativo entre elementos, que apesar de serem culturais, são produtos diferentes, com propósitos diferentes.

Turismo, esporte e cultura (aqui vista mais na segunda acepção apontada acima) são atividades cruciais, não apenas economicamente, mas porque geram identificações, fortalecem a personalidade de uma cidade. A proposta atual dessa reforma administrativa contribui fortemente para que Joinville dê mais um passo atrás nesses quatro setores e afunde-se na completa despersonalização. Algo que já está acontecendo a olhos vistos.

Rubens da Cunha

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3 respostas para “O passo atrás – crônica de Rubens da Cunha

  • Helga Tytlik

    Pois é meu amigo, enquanto o mundo discute a cultura como vetor de desenvolvimento econômico através da economia criativa (cultura no sentido mais amplo da palavra, tudo que compõe o indivíduo: sua formação,experiência, religiosidade, crenças, valores), aqui opta-se por fórmulas antigas e ultrapassadas que já se mostraram ineficientes. Acertar a economia através do corte de gastos é trava para o desenvolvimento. Se queremos desenvolvimento sustentável, desejo de todo o planeta, a ação deveria ser exatamente oposta: investir na cultura para desenvolver processos de inovação e quebra de paradigmas que trarão crescimento consciente, participativo, colaborativo e sustentável (e com isso acertará automaticamente a economia formal).
    É só acompanhar o que anda acontecendo fora do umbigo local….

  • Maurélio Machado

    Parabéns ao Prefeito de Joinville pela decisão de propor numa só Secretaria a da Cultura, Esporte e Turismo, abraços Mestre.

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