Sempre uma nova fase – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 11/03/2015

A vida entrando em nova fase. Como num jogo de videogame. A diferença é que não se pode zerar, começar de novo, iniciar novamente a jogada. Trata-se sempre de seguir em frente, de ir largando pedaços de história, de ir recolhendo outros, de sempre fazer escolhas e abandonos. É um jogo constante feito de perdas aparentes e ganhos reais. As perdas são aparentes, porque, no fundo elas também são ganhos, também são acréscimos, cimentam aquilo que somos. Obviamente, quem dá muito valor às perdas, cimenta-se de forma mais fraca, porque apega-se no que foi, no que se perdeu, e como diz Drummond o “que se dissipou, não era poesia, o que se partiu, cristal não era”. Ou como diz Hilda Hilst: “De amoras. De tintas rubras do instante é que se tinge a vida”.

 A vida sempre entra numa nova fase, queira ou não queira, peça ou não peça. Talvez a grande diferença seja que as fases não precisam ficar mais complexas, difíceis. Se usarmos o controle direito, as fases vão melhorando mesmo: menos escolhas, menos embates com o tempo, menos vontade de tudo ter e tudo consumir, mais desapego com as futilidades, com os supérfluos que vão dos sentimentos às roupas, dos carros aos amigos. Tudo se encaixa melhor se você está melhor encaixado a cada fase da vida. Na verdade, pensando aqui dentro da linha de raciocínio de Manoel de Barros, tudo se encaixa melhor, quanto melhor você se desencaixa. Quando você se desadjetiva e se substantiva mais. A liberdade de ser e estar com quem quiser. A felicidade de ser e amar a quem escolher. Se o tempo lá fora está sombrio, se os outros estão buscando no ódio alguma afirmação política, religiosa, ética, a quem cabe enfrentá-los? Talvez nem seja questão de enfrentar o outro, mas enfrentar a si mesmo, fazer com que as novas fases da vida não se encaminhem para um mundo trevoso, violento. Não se violentar sentindo ódio, por exemplo, já estabelece alguma leveza, seja para a nova fase da vida, seja para aquela que ainda está se vivendo.

Por fim, é bom relembrar sempre o clássico de Gonzaguinha, que responde singelamente a uma das perguntas mais difíceis já feitas: o que é a vida? É bonita, é bonita e é bonita.

Rubens da Cunha

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