Dos protestos e das escolhas – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 18/03/2015

 

E os protestos aconteceram. Ausentei-me por uma questão ética. Em passeata que tem apoio de gente como Bolsonaro, Feliciano, Malafaia e congêneres não há condições de participar. Em passeata que tem gente pedindo a volta do regime militar ditatorial, mesmo que disfarçado de intervenção militar, não tem como estar junto. Trata-se de uma escolha ética e também uma escolha de não optar pela incoerência: essas vozes podem ser isoladas, minoritárias, mas estavam lá, estavam democraticamente pedindo o fim da democracia. Havia até cartaz agredindo Paulo Freire. Teve cartaz pedindo a ajuda de Eduardo Cunha. Não houve vaia para eles, não houve carro de som solicitando que tais ideias se retirassem do protesto. Esse discurso, além de inúmeros outros eticamente complicadíssimos, foram incorporados e aceitos nas passeatas de domingo. Se isso não é um problema para os bem-intencionados manifestantes, é um problema para esse poeta bem-intencionado. Outro ponto que me fez me ausentar foi a distância e a generalização das ideias: protestar “contra a corrupção”, “contra tudo o que está aí” e sobretudo, centralizar a indignação no governo federal. Posso ser utópico, mas mudança mesmo ocorreria se tal força fosse destinada às prefeituras e às câmaras de vereadores. Se tal mobilização ocorresse a cada caso de desmando e incompetência municipais e estaduais, afinal, saúde, educação, segurança, transportes são responsabilidades dos estados e municípios, mas parece que muita gente não sabe disso. Que os próximos protestos peçam menos intervenção militar e mais transparência nas administrações municipais e estaduais. Nem vou elencar aqui a tão propalada corrupção endêmica do brasileiro e aquela hipocriziazinha que nos comanda, batizada de “jeitinho”.

Os protestos aconteceram. Que eles tirem a presidente da inércia e que ela possa perceber que o jogo pró-direita do último mandato, e que manteve no atual, em nada convenceu a parcela conservadora da sociedade, além de desagradar bastante os progressistas. E que a democracia (mesmo com todos os seus problemas que não cabem aqui) se fortaleça e não seja aviltada por vozes escusas, por vozes que estupram a história e que, não raro, se mostram muito perigosas porque vestidas com o galardão de “salvadores da pátria”.

Rubens da Cunha

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