A caravana – crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 25/03/2015

A caravana

Dessa vez ele pegaria a caravana. Levantou-se, respirou fundo, preparou corpo e alma e resolveu sair. Porém, quando estava quase na porta, o pai o chama e começa a falar de como o mundo está perdido, de que os militares é que deram jeito no Brasil, de que precisamos de novo de uma ditadura. O pai também comenta que tem muito orgulho do filho que ele se tornou, afinal, nunca se envolveu com nada, nunca foi rebelde, nunca foi vagabundo, nem comunista. O máximo que teve de rebeldia foi quanto aventou a possibilidade de ser professor de história, algo rapidamente suplantado, pois agora ele era um excelente gerente financeiro num banco privado. Ao saber que ele queria pegar a caravana, o pai repetiu os conselhos e as memórias: “para quê? Onde ela pode te levar? Você tem que ficar aqui, nesse lado, a caravana é só para os vagabundos, nós temos que lutar para fazer com que a caravana pare de andar, e não para embarcar nela”. Conseguiu, com muito esforço, se desvencilhar do pai, mas na primeira esquina encontrou o pastor, que atualmente é deputado. Sem que ele perguntasse nada, o pastor começou a falar contra os homossexuais e como o mundo estava perdido, e como eles teriam que defender os valores da família, do casamento, da moral e dos bons costumes. De repente, o deputado-pastor começou a repetir as palavras que ele acabara de ouvir do pai. Conseguiu também se desvencilhar desse interlocutor, mas em seguida foi interpelado pela líder da campanha pró-vida, que jogou sobre ele todo o discurso do porquê se deve ser contra o aborto, além disso, o feminismo iria acabar com o mundo, com a família. O discurso do pai e do pastor se repete. Esforça-se e consegue se afastar dessa pessoa também, mas percebe que está sem sorte, encontra um comentador de internet, que descarrega sobre ele o discurso contra as cotas, contra os direitos das minorias, contra a nova lei das empregadas e que o mundo hoje está impossível, pois há uma ameaça de extinção ao homem branco e hétero. Ele, cansado, consegue se afastar também dessa voz incômoda, porém, mais uma vez, ele perdeu. Mais uma vez ele ficou junto com os que ladram enquanto a caravana da história passa. Amanhã tentará de novo.

Rubens da Cunha

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2 respostas para “A caravana – crônica de Rubens da Cunha

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