Revolução poética, já! – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 01/04/2015

Revolução poética, já!

Numa série de dezessete poemas intitulada “Poemas aos homens do nosso tempo” nas primeiras estrofes, Hilda Hilst diz: “Senhoras e senhores, olhai-nos. / Repensemos a tarefa de pensar o mundo. / E quando a noite vem / vem a contrafacção dos nossos rostos / rosto perigoso, rosto-pensamento / sobre os vossos atos. / A muitos os poetas lembrariam / que o homem não é para ser engolido / por vossas gargantas mentirosas. / E sempre um ou dois dos vossos engolidos / deixarão suas heranças, suas memórias.” Repensar a tarefa de pensar o mundo. Afirmar, mais uma vez, que o homem não é para ser engolido pelas gargantas mentirosas dos sistemas ditatoriais. Saber que, por mais que se cale, que se torture, que se expulse ou mate, sempre sobrarão heranças, memórias, gritos, testemunhos daqueles que foram engolidos, e esses fragmentos, esses pedaços de voz, farão com que outros continuem insistindo na dura tarefa de repensar o mundo. É preciso sempre que, de forma contínua e continuada, sigamos repensando tal tarefa. Trata-se de um ato político-criativo nesse nosso tempo em que a política está cada vez mais fundamentalista e a criatividade cada vez mais superficial, mais fetichizada como mercadoria. É preciso uma revolução poética, não feita apenas pelos poetas, mas pelos líricos em geral. No mesmo poema citado acima, Hilda Hilst também diz “cantando amor, os poetas na noite / repensam a tarefa de pensar o mundo. / Podeis crer que há muito mais vigor / no lirismo aparente / no amante fazedor da palavra / do que na mão que esmaga.” Se o ódio e a vingança parecem mover os gritos dos indignados de plantão (não raro, amotinados sob o epíteto de cristãos), é preciso resgatar o Cristo poeta, o rebelde destruidor de templos e amigo dos inválidos, dos que são menos e menores diante das botinas massacrantes da moral. Repito: se faz cada vez mais necessário uma mudança, pois acredito que um tal ato criativo como este ajudaria, cada vez mais, a pensar o nosso tempo, em que ditaduras estão disfarçadas sob o manto da “livre expressão”, do “consumo”, da “democracia”. Enfim, um tempo líquido, muito propício e necessitado de uma sólida revolução poética.

Rubens da Cunha

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