Aprender a nadar – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada em 08/04/2015 no Jornal A Notícia

Há um verso de Chico César na canção Barco que me comove: “choro saber que o homem sábio pode morrer se não souber nadar.” Assim, todos nós: frágeis, incompletos, destinados à sorte de nos vermos desamparados, de nos vermos finitos, de nos sabermos muitas vezes tão pretensiosos, tão donos da verdade, de nos alçarmos à condição de maiores e melhores, mas perdermos a empáfia justamente por que não tivemos tempo para algo menor, mais humilde, mais desnecessário, ou que assim parecesse a nossos olhos viciados em grandeza. Outros versos bastante irônicos vem de uma canção de Gilberto Gil, chamada Roda: “se morre o rico e o pobre, enterre o rico e eu: quero ver quem que separa o pó do rico do meu”. A tão sonhada igualdade entre humanos que só acontece depois da morte, mas que aqui em cima parece impossível, porque a desigualdade ganhou força de coisa natural. E quando a coisa entra no jogo do “sempre foi assim”, “assim tem que ser porque é natural” ou “porque Deus quis” vira lei tão verdadeira quanto à gravidade, ou as leis básicas da física que fica quase impossível repensar tais “verdades”. Talvez esse seja um dos papéis da arte: repensar as coisas cristalizadas, sedimentadas, ficar sempre remexendo os móveis do costume para que a humanidade respire além do hábito. Parece luta inglória, mas pertinente, e que vem sendo lutada sempre e como diria Gonzaguinha “eu acredito é na rapaziada que segue em frente e segura o rojão, eu ponho fé é na fé da moçada que não foge da fera e enfrenta o leão”. E o leão também é nossa finitude e nossa cada vez mais forte falta de empatia. A luta tem que ser por menos barbárie e mais compaixão. Mais colocar-se no lugar do outro, não para descaracterizá-lo ou desrespeitá-lo, mas para saber que o outro também é a gente. Que a igualdade não é apenas depois da morte em que os pós se misturam, mas agora: corpo, sangue, olhar. Choro saber que o homem sábio pode morrer se não souber nadar: mas sempre há tempo de se aprender e apreender algo novo, algo que nos protegerá, nos manterá sobre as águas turvas da vida. Que aprendamos a nadar, antes que o nada se faça e nos una, pó e resto, nos escombros da história.

Rubens da Cunha

Anúncios

Uma resposta para “Aprender a nadar – Crônica de Rubens da Cunha

  • Maurélio Machado

    Sentimos com toda força as desigualdades sociais sobressaírem, especialmente nas eleições passadas…foi uma batalha entre ricos, classe média alta X pobres e pobres remediados. Uma vergonha para um País onde os políticos pregam a democracia e igualdade de direitos( só no papel)Infelizmente vamos continuar com este rincão tupiniquim a deriva pois “nossos”(paupérrimos) governantes não sabem que rumo dar à nau.
    Continuamos a navegar sem rumo!
    Abraços Mestre e meus aplausos pela crônica encantadora.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: