O piso gelado – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 15/04/2015

Os pés no chão. A sola do pé recebendo o geladinho do piso frio. Tudo serve para amornar o corpo, tudo serve para amansar a alma irrequieta. Tem sido dias pesados, não tanto por mim, que há muito decidi ser leve, mas pelo entorno, pelo que está acontecendo a minha volta. A sombra ditatorial se faz cada vez mais presente. Por trás de cada cartaz pedindo intervenção militar num protesto democrático, por trás de cada fala pedindo pena de morte, por trás de cada equívoco ético escrito em letras garrafais, há um desejo de se anular qualquer diversidade. Estamos vivendo tempos de uniformização, tempos segregacionistas, em que a luta não se dá para que a justiça social aconteça, ou para que haja uma mudança real e profunda em educação, saúde, transportes, que eles sejam públicos mesmo, e não coisa de gente sem dinheiro. A luta atual parece ser pelo privilégio, pelo separatismo, pelo silêncio de qualquer um que não se encaixe nos padrões morais vigentes.

Ando mais um pouco sobre o piso frio. Agito-me em pensar que igrejas estão formando exércitos, que vozes religiosas, políticas, jornalísticas estão exigindo o revanchismo fácil do fascismo. É, vai ser preciso muito chão gelado para acalmar o corpo e a alma. No entanto, como diria o grande herói Chapolin Colorado “não criemos pânico”: noções básicas de solidariedade também se fortalecem e permeiam as mudanças necessárias. O outro, como toda a sua carga de diferença, está aí, ao nosso lado, para ser reconhecido e respeitado. As breves e anônimas solidariedades ainda permanecem movendo a sedimentação do ódio. Para cada grito excludente há milhares de sussurros inclusivos que permitem a história caminhar, a sociedade evoluir para algo mais amplo e comum. A vontade ditatorial (religiosa, política, econômica) de alguns, apesar de barulhenta, apesar de agressiva e estar cada vez mais cotidiana, ainda pode ser enfrentada, não com violência ou com deboche, mas com inteligência, calma, e sobretudo com as ferramentas que essas pessoas pouco sabem usar: ética e empatia. É um trabalho árduo e que necessita muito chão gelado para acalmar, pois o caminho mais fácil é o que eles escolheram: o revanchismo, a imposição violenta, a anulação do diferente.

Rubens da Cunha

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