Primeiro elemento: ar – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 22/04

Pele invisível. Corpo que adentra minha boca, garganta, pulmões, esôfago, estômago. Sou vivo porque ele vive em mim. Entra um e sai outro. Metamorfoseia-se dentro, não apenas desse meu magro corpo, mas de todo aquele que respira. Os fazedores das palavras deram-lhe um nome pequeno quando parado: aqui nessa língua que escrevo, duas letras servem para dar contra da imensidão imóvel. Quando ele se movimenta, seu nome muda e aumenta conforme a velocidade: Brisa, vento, ventania, vendaval, furação, ciclone. Se ele passeia calmo nas orlas, se ele enfeita as primaveras e o os outonos, ele brisa-se, como se fosse um velho sábio que caminha bem mais do que anda. Quando corre, ele é divertido e moleque: saci mesmo. Levanta saias, poeira, estraga os cabelos, bate janelas, quebra vasos, transforma sacolas plásticas em doces pássaros que voejam baixo pelas ruas. Ao correr ele esculpe dunas e massageia as árvores e também sustenta os grandes pássaros nos seus voos largos e gosta de atrapalhar os insetos. No inverno, ele corta a pele do rosto e fere os olhos. Adolescenta-se, irrequieto, por qualquer lugar vazio, pois ele é o vazio e sabe disso. Quando se irrita, seu nome cresce como cresce sua força. Ele é todo pulso e pulsão. Todo devastação. Já não se contenta mais em estar nos lugares vazios ou em ser o vazio. Ele quer ocupar todos os espaços, para isso precisa por abaixo qualquer coisa sólida que se interponha a ele. Por isso desanda a correr e quando esbarra em árvores, paredes, telhados, bate com tanta força até que faça com que a solidez seja também parte de sua matéria, que tudo saia correndo, voando, rastejando, que tudo seja movimento. Depois se acalma, ocupa os velhos espaços vazios e os novos que conseguiu construir à força, volta ter nome pequeno, a estar sem ser visto, apenas sentido, volta e encher pulmões e balões. Volta a ser essa pele invisível que me abarca. Que se presentifica peso e toque sobre minha frágil vida de respirante. Até a próxima corrida, até o próximo ataque de fúria. Assim sigo, até o dia em que ele escolher não entrar mais em meu nariz. Até o dia em que ele resolver se despedir de mim para sempre.

Rubens da Cunha

Anúncios

2 respostas para “Primeiro elemento: ar – Crônica de Rubens da Cunha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: