Segundo elemento: terra – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 29/04/2015

Segundo elemento: terra

Do pó viestes, ao pó voltarás. Desde os começos, essa é a sentença, a verdade que nos constitui. Sem escapatória, sem qualquer tipo de alternativa. A terra nos sustenta, aguenta nossos pés sobre seu corpo firme. Não apenas os nossos frágeis pés humanos, mas as quatro patas de quase todos os outros vertebrados, além do rastejo dos répteis, da leveza dos insetos, e da derrota dos pássaros, sim, porque toda vez que um pássaro pisa na terra, ele compreende que seu voo é finito, que nada dela pode escapar. Talvez apenas as nuvens sejam exceção ou alguns grãos de poeira rebeldes que nunca mais voltam, ou dois ou três satélites enviados ao espaço, mas que são compensados pelos meteoros e meteoritos que por aqui pousam. Fora isso, tudo o mais é contato. Tudo se faz prisioneiro da lei inexplicável chamada, não por acaso, de gravidade. A terra é grave. Tão grave que o planeta leva seu nome, confunde-se com ela. Os mares dominam a superfície do planeta, mas também são prisioneiros da terra. É ela que não deixa que os mares e os rios vazem. Seus outros nomes revelam outras delicadezas. Chão: certeza, espaço que nos centra, firma-nos em sobriedade e força. Solo: lugar das plantações, das lavouras, dos arados e rotativas. É no corpo da terra que os alimentos se alimentam. Barro: é seu corpo feito para as construções, as cerâmicas. Se misturado com água, vira lama, pantano, lugar de crianças livres, sobretudo aquelas que ainda não foram isoladas pelo asfalto, esse tapete duro que aprisiona a terra. Asfalto, cujo nome é traição. O asfalto tirou a terra das cidades. Do ponto de vista do conforto, pensar isso é uma insanidade. Do ponto de vista do saudosismo, pensar isso é tentar trazer de volta a terra a seu lugar de direito, sob o sol, ao ar livre, irrigada pelas águas da chuva, e não presa sob camadas pétreas de conforto. Mas ainda restam os foras da cidade, os campos, algumas florestas, ainda restam possibilidades de se conseguir amigar-se com a terra novamente em suas diversas facetas: pedra, areia, terra roxa ou vermelha. Terra, corpo que, a cada dia, se constitui do corpo daqueles que deixaram de viver. A terra é um grande estômago.

Rubens da Cunha

 

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