Uma lembrança

Crônica publicada no Jornal a Notícia em 20/05/2015

Para James Brizola

A morte é uma recordadora. Excetuando-se aqueles com quem temos contato direto ou diário, a maioria das pessoas que conhecemos, ou sabemos quem é, não fica na nossa cabeça. Um certo dia, vem a morte e leva essa pessoa. A notícia é como se fosse um lembrete: “Olha! O fulano de tal fez parte da sua vida, apesar de você ter se esquecido dele há muito tempo”. Essa foi a sensação que eu tive ao saber da morte trágica do radialista James Brizola. Nos idos anos de 1980, eu era um adolescente invisível no interior de Araquari. Uma das escapatórias inventadas para suportar as espinhas e demais desconjunturas da adolescência era ouvir rádio. Percebendo agora, quase trinta anos depois, eu lembro apenas do Brizola. Sua voz diferente, pendendo para o agudo, suas palavras calcadas numa pieguice bem propícia para o público ao qual ele se dirigia: às vezes era derramadamente romântico e em outras tocava a autoajuda e, assim, construiu uma carreira muito marcante no rádio joinvilense. É… vendo agora, com o filtro do tempo, o Brizola conseguia se comunicar tanto comigo, um adolescente interiorano, quanto com a dona de casa, a empregada, o operário. Todos éramos enredados por suas palavras sensíveis, por seu jeito carinhoso de dizer as coisas. Certa vez eu até mandei uma carta para o programa dele. Se não estou enganado, era uma parte em que se pedia duas ou três músicas. Se havia uma coisa que me cansava na programação das rádios era aquilo de só tocar sempre a mesma música, o mesmo sucesso. Todos os outros ouvintes que escreviam para o programa pareciam desconhecer diversas outras canções. Pois eu resolvi provocar o Brizola: pedi umas músicas bem lado b de umas duplas sertanejas que eu gostava. Ele leu minha carta, agradeceu e tocou as tais músicas que quase ninguém conhecia. Senti-me vitorioso naquele dia. Depois eu cresci, parei de ouvir rádio, segui outros rumos. O Brizola, no entanto, permaneceu no seu lugar, dizendo as velhas e sábias palavras, tocando as músicas conhecidas e desconhecidas, sendo um grande comunicador. Nunca o vi pessoalmente. Soube de sua morte e me entristeci por ter passado tanto tempo sem lembrar dele, pior, só lembrar dele por causa da tragédia.

Rubens da Cunha

Anúncios

2 respostas para “Uma lembrança

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: