O vazio impossível – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A notícia em 03/06/15

 

E lá vem o vazio de novo. Poço sem água. Melhor, lá vem a aparência do vazio, pois ele é sempre uma decepção, um vácuo ilusório, porque nunca se está vazio completamente. Há sempre um preenchimento, mesmo que invisível, mesmo que intangível. Pode ser uma saudade, uma tristeza, uma lembrança remota, uma alegriazinha que permaneceu incrustada na pele. Pode ser um som da infância, um cheiro, um desejo, uma promessa que ainda não se cumpriu, pode ser qualquer agente motivador do passado, presente ou futuro. De maneira geral somos sempre preenchedores de vazio: a desilusão amorosa é ocupada por um novo amor, a derrota é ocupada pela esperança, a decepção é ocupada pelo ódio ou pelo perdão, a morte é ocupada pela dor, depois luto, depois saudade, depois esquecimento. E os vazios vãos sempre surgindo, pululando, vão sempre minando nossa sensação de completude, no entanto é esse trabalho de preencher os vazios que nos faz permanecer vivos. Na verdade, somos impossíveis ao vazio. Ele é uma presença, por certo, mas jamais consegue ser uma presença total. E os suicidas? me perguntarão, não seriam eles os que encontraram o vazio completo? Talvez. Mas acredito mais na ideia de que para eles não se tratou exatamente de vazio, mas de preenchimento, de não haver mais espaço de respiro, de vasão. Suicidas não me parecem vazios, mas cheios, repletos. É como se fossemos um vaso e que colocamos pedras, parece estar cheio, mas ainda pode-se colocar areia entre as pedras, parece estar mais cheio ainda, mas ainda é possível colocar água, tudo na tentativa de preencher os vazios que resistem. Suicidas quebraram o vaso. Talvez quem encontre o vazio total sejam as vítimas do mal de Alzheimer. O olhar perdido, no lugar da memória um buraco, a falta de percepção de si e dos outros. É o esquecimento como uma solidez, uma pedra que se disfarça de oquidão. Mas isso é uma doença, um acontecimento biológico. Se não formos atingidos por esse acontecimento e também se não quebrarmos o vaso que somos, o vazio será sempre uma ilusão de vazio. Por isso é preciso aprender a conviver com ele, jogar seu jogo e, à medida do possível, desrespeitar suas regras, desmacará-lo como a farsa que é.

Rubens da Cunha

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