Das expressões e ditados – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica Publicada em 10/06/2015 no Jornal A Notícia

Há certas expressões que se lhe retirarmos o sentido mais imediato resta uma estranheza. Muito por causa de uma ou outra palavra que compõe tal expressão. “Matar dois coelhos com uma cajadada só”. Se cajado já é uma palavra rara de se usar, cajadada só tem uso mesmo nessa expressão estranhíssima, sobretudo, se pensarmos em seu sentido literal: como um cajado pode matar dois coelhos de uma só vez? Olhando no dicionário, descubro que um dos sinônimos de cajado é “pau-de-são-josé”. Como ficaria se usássemos esse sinônimo: “matar dois coelhos com uma pauzada-de-são-josé só”, ou seria uma “pau-de-são-josezada só”? Por outro lado, cajado lembra pastor que lembra ovelha. Diz a lógica que quem deveria ser assassinado com uma cajadada só seriam, portanto, duas ovelhas. Enfim, tentar entender tal expressão além de seu sentido primeiro pode ser um excelente exercício surrealista.

Outra expressão que me soa estranha é “o tiro saiu pela culatra”. Tirando o fato de que tal dito cai muito bem no recente caso de um pastor que tentou fazer com que seus fieis boicotassem uma marca de perfume, aqui temos outra palavra que quase só encontra uso nessa expressão. Tirando o uso por quem lida com armas, “culatra” é pouco vista na vida cotidiana. Ao conferir seu significado no dicionário, descubro que tal palavra também é um sinônimo chulo para nádegas. Ou seja, a tão inocente expressão que usamos quando algo dá errado, pode carregar também um subtexto quase obsceno. Um tiro que sai pela culatra, se for literal pode ser bem perigoso, assim como pode ser perigoso se entendermos culatra como nádegas. Novamente, a imaginação corre solta, sobretudo, se abandonarmos o sentido primeiro de tal expressão e começarmos a brincar com outras possibilidades.

O interessante de pensar essas e outras expressões, ditos, provérbios é justamente esse: o quanto, para além da aparente obviedade, eles se revelam excelente material de reflexão sobre a linguagem, seja num aparente exercício de brincadeira verbal, com esse que eu fiz até aqui, seja um estudo mais aprofundado da língua. De qualquer forma, estas frases estão por aí, constiuindo-se num patrimônio linguístico variado e rico.

Rubens da Cunha

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